Além dos véus: uma reflexão sobre mercado, fashion, cultura e tradições na Indonésia

Morei na Indonésia por três anos. Aprendi bahasa indonésio num curso de imersão em Yogyakarta, trabalhei na Embaixada do Brasil em Jacarta e como voluntária em bazares beneficentes que arrecadavam fundos para projetos sociais pelo país. Foi também na capital da Indonésia que aprendi a pintar à óleo com a artista plástica balinesa Ni Wayan, uma técnica e um olhar que carrego comigo. A partir dessa vivência, foram várias exposições em Jacarta e em Brasília, no Brasil, em shoppings, galerias, empresas públicas e embaixadas, e mais recentemente na Itália.

O véu (como se usa, o que significa, como muda de forma conforme a rua, a geração, a renda) foi uma das primeiras coisas que aprendi a observar com atenção naquele país. Por isso volto a ele agora, não como curiosidade exótica, mas como um objeto de pesquisa cultural genuinamente complexo, que atravessa economia, moda e negociação de papéis de gênero.

Nas department stores Pasaraya e Blok M Square, localizadas no bairro de Blok M, em Jacarta, há várias lojas dedicadas à moda muçulmana. Há gamis, abayas, turbantes coloridos, mukena para orações e roupas de festa para o Lebaran, a celebração do fim do Ramadã. Tive a oportunidade de visitá-las, comprar algumas peças, e sempre que ia fazia uma pausa para um café toraja.

Uma curva que ninguém previu

Os números, quando comparados, chocam por sua velocidade. Segundo um relatório de 2021 da Human Rights Watch, cerca de 75% das mulheres muçulmanas na Indonésia usam hoje o hijab, ante apenas 5% no final dos anos 1990. Isso significa que, no espaço de uma geração, o véu passou de prática rara, associada a mulheres mais velhas do interior, a norma social entre jovens urbanas de classe média: justamente o grupo que, em teoria, teria mais contato com o mundo globalizado, a educação superior e o mercado de trabalho formal.

A intuição mais comum no debate público, de que o avanço do véu reflete um retrocesso conservador, uma “islamização” imposta de cima para baixo, não está de todo errada, mas é incompleta. A pressão institucional existe e é bem documentada: há casos recorrentes de escolas públicas que exigiram o uso do hijab por alunas não muçulmanas, episódios de bullying contra estudantes que se recusaram a usá-lo e instruções administrativas específicas sobre como servidoras públicas devem ajustar o tecido. Mas a literatura acadêmica mais recente sobre o tema conta uma história bem mais complexa, e em certo sentido mais interessante, sobre agência econômica, sinalização social e negociação de papéis de gênero.

A economia do véu na Indonésia

Um dos pesquisadores que mais avançou nessa análise é o economista Stefano Fiorin, professor da Universidade Bocconi, em Milão, cuja agenda de pesquisa cruza economia do desenvolvimento, normas sociais e mercado de trabalho em países como Indonésia, Quênia e Nepal. Em seu projeto em andamento “Wearing Your Religion: How Labor Markets Price Visible Identity”, Fiorin pesquisa junto à Eliana La Ferrara e Naila Shofia como empregadores reais avaliam currículos de candidatas, variando aleatoriamente se a fotografia da candidata mostrava-a usando ou não o véu.

O resultado é um contraponto importante à narrativa de “islamização triunfante”: currículos de mulheres com véu recebem avaliações sistematicamente mais baixas e menor probabilidade de convite para entrevista. Ou seja, mesmo em um país de maioria muçulmana, o mercado de trabalho formal ainda penaliza, em média, a candidata que opta por se cobrir, o que torna a decisão de vestir o véu, para uma jovem que também quer uma carreira, um cálculo bem mais delicado do que a simples adesão religiosa. É exatamente esse paradoxo, o véu cresce apesar de, e não por causa de, uma vantagem competitiva óbvia no mercado formal, que uma segunda linha de pesquisa tenta explicar.

O véu como ferramenta de negociação

Segundo o texto publicado no blog de pesquisa do Banco Mundial por Naila Shofia, o motor por trás da adoção crescente do véu não seria o fervor religioso, mas justamente a expansão de oportunidades econômicas para as mulheres. Para medir esse fenômeno, Shofia recorreu a livros de formatura de escolas públicas indonésias. A partir das fotografias de estudantes, foi construída uma série histórica do uso do véu entre alunas do ensino médio em 49 distritos do país ao longo de mais de duas décadas.

Cruzando esses dados com um instrumento que isola choques de demanda internacional por produtos indonésios (o que a autora chama de “choque de exportação”), Shofia mostra que um aumento de um ponto percentual no emprego formal feminino provoca um aumento de dois pontos percentuais na taxa de uso do véu.

A explicação proposta é sociológica tanto quanto econômica: à medida que mais mulheres deixam o espaço doméstico para trabalhar fora, elas assumem também atributos culturalmente associados à independência, à ambição e a uma ruptura com papéis tradicionais, traços que, em muitos contextos indonésios, ainda geram desconfiança social. O véu funciona, nessa leitura, como um contrapeso simbólico: sinaliza recato, fé e conformidade com valores familiares justamente no momento em que a mulher está fazendo algo que rompe com a norma antiga. É, em suma, um instrumento de negociação, não uma rendição ao conservadorismo, mas uma estratégia para exercer autonomia econômica sem pagar o preço reputacional integral dessa mudança. Shofia observa ainda que são as mulheres mais escolarizadas, e não as mais tradicionais, que apresentam maior probabilidade de adotar o véu, e que o efeito é mais forte justamente nos distritos onde as normas de gênero estão em transição, nem rigidamente tradicionais, nem já plenamente igualitárias, o que reforça a leitura do véu como resposta a uma negociação social ainda em curso, e não como uma imposição unilateral.

Moda muçulmana: da Indonésia para o mundo

Se a economia ajuda a explicar por que o véu se espalhou, foi a indústria da moda que lhe deu forma, cor e desejo de consumo. Segundo a Fortune Business Insights, o mercado de moda muçulmana global movimentou cerca de US$ 101,9 bilhões em 2026. Esse boom tem rosto e nome: a estilista Dian Pelangi, hoje com milhões de seguidores nas redes sociais, transformou o véu em superfície de expressão estética, com estampas ousadas e cortes que dialogam com a moda internacional, ajudando a desconstruir a associação entre hijab e “atraso”. A chamada comunidade hijabers, nascida em torno de blogs e do Instagram no início dos anos 2010, consolidou o véu como estilo de vida, capital social e, cada vez mais, capital econômico, com mulheres que constroem carreiras, marcas e audiências em torno da própria forma de se vestir.

Neste século, a moda muçulmana chegou também a grandes marcas do continente europeu, desde boutiques mais acessíveis como a Neyssa Shop e a JENNAH, até o mercado de luxo. Em 2016, a Dolce & Gabbana e a Chanel lançaram suas primeiras coleções de hijabs. No mesmo ano, as lojas de departamento Uniqlo e Mango idealizaram roupas orientadas ao mercado muçulmano, conforme reportado pela Elle. A Valentino criou a sua primeira coleção de hijabs em 2021. No ano seguinte, a Louis Vuitton lançou pela primeira vez uma linha de roupas e perfumes para o Ramadã em 2022.

Coleção Abaya. Foto: Dolce & Gabbana.

Oltre i Veli: a exposição

É esse mesmo território, a ponte entre culturas, e o véu como símbolo múltiplo, nunca unívoco, que trago para a tela no projeto Oltre i Veli (“Além dos Véus”). Nesta quinta-feira, 16 de julho de 2026 às 18:30, participo do festival Summertime da academia EquiliBrea, em Turim, com três quadros que nascem diretamente dessa pesquisa e dessa vivência: Il velo di Aisha, I veli nel mondo e La maternità. Cada um observa o véu por um ângulo diferente: o retrato individual, a variação global da prática entre culturas e religiões, e o vínculo entre o corpo feminino, a proteção e a maternidade. Como coach transcultural, é exatamente esse o meu trabalho, usar a pesquisa cultural, os dados, os estudos, as histórias de campo, como matéria-prima para construir pontes entre países, entre olhares, entre quem pergunta e quem já viveu a pergunta por dentro. Espero você lá.

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