Nasci no Brasil, um país conhecido mundialmente por duas paixões coletivas: o futebol e o Carnaval. Embora eu goste de ambos, o meu caminho profissional seguiu outra direção — a das artes plásticas, literária e cênicas, da gestão e da cultura. Não apenas da cultura social, mas também da cultura organizacional e global. Ao longo dos anos, passei a apoiar líderes, executivos e expatriados a fazer algo que parece simples, mas não é: dançar conforme a música do contexto em que estão inseridos.
Talvez por isso o Carnaval sempre tenha me interessado para além da festa. O Carnaval não tem passaporte. Ele tem transculturalidade. Ainda assim, é impossível negar: o Brasil continua marcando presença forte nesse samba-enredo.

A minha experiência recente não foi sambando na Sapucaí, no Rio de Janeiro, mas dançando nas ruas estreitas de Crescentino, uma cidadezinha no Piemonte. Não havia camarotes, divisões rígidas, nem policiamento separando quem assiste de quem participa. As pessoas estavam no chão da rua, misturadas, observando os carros alegóricos passarem, celebrando, ocupando o espaço público com alegria e curiosidade. Vi ali um Carnaval de espetáculo — mais estético, mais observador, mais ritualístico. As pessoas não dançavam, não cantavam, mas jogavam confetes e sorriam.

No Brasil, dependendo da região, também encontramos múltiplos Carnavais. Há o Carnaval de rua, onde todos interagem, se misturam e improvisam juntos. Há também o Carnaval elitizado, restrito a quem pode pagar pela mortalha, pelo camarote ou pelos clubes privados. Essas variações não são exclusividade de um país ou de outro. Elas existem nos dois contextos, apenas se manifestam de formas diferentes.
Na Itália, um país apaixonado pela gastronomia, é comum encontrar nas festas os doces típicos: a castagnole ou favette, o friciò piemontesi, a fritelle di mele, entre outros. Os doces fritos e quentinhos fazem parte para alegrar a festa, mas também para aquecer no período de inverno. No Brasil, não existem tradições culinárias específicas. Sendo verão, a procura maior é por bebidas geladas, principalmente a cerveja ou a adorada caipirinha.
Em uma festa onde o álcool faz parte da animação, e a sensualidade dos corpos marca presença uma distinção importante entre os dois países é que a sensualização e o sexo são mais presentes no Brasil, até mesmo de forma pública. Na Itália não é comum ver casais se beijando, enquanto que no ambiente brasileiro não há muitos limites.
Algo que atravessa culturas é o culto ao corpo. Enquanto no Brasil, pesa mais a estética, o corpo escultural, do que a idade; na Itália, pesa mais a idade do que a estética. E quase sempre pesa mais sobre o corpo feminino, isso em qualquer um dos dois países. Enquanto a mulher deve ser jovem, magra, bem cuidada, maquiada, com um corpo em perfeita forma; os homens gozam de uma liberdade simbólica muito maior para envelhecer, engordar, e seguir sendo socialmente validados.
Por outro lado, sendo a folia italiana na estação mais fria do ano, as vestimentas acabam por cobrir os corpos das italianas, enquanto no Brasil, em pleno verão, mesmo nas festas de clubes – a tendência é que as mulheres usem roupas decotadas e curtas, expondo-se mais.
O Carnaval brasileiro é um dos raros momentos em que o racismo ocupa menos espaço no centro da cena. Não porque ele deixe de existir, mas porque o corpo negro, a ancestralidade africana, o ritmo e a estética que sustentam a festa ganham protagonismo e visibilidade.
Do ponto de vista afetivo, nota-se uma paixão correspondida entre Brasil e Itália. Brasileiros amam a cultura italiana, e os italianos adoram o sotaque brasileiro, a personalidade expansiva e calorosa, a brincadeira e a folia. No meio desse baile, no grupo carnavalesco Cariocas, dancei entre brasileiros e italianos; sentindo-me completamente integrada, orgulhosa por carregarem a bandeira do Brasil e da Itália unidas, como irmãs.

O Carnaval não tem passaporte, no entanto, quem aprende a dançar entre culturas, seja na rua, na empresa ou na vida, desenvolve uma competência essencial para o mundo global, a adaptabilidade.
Quem consegue se fantasiar e se deixar levar pelo ritmo da música, no final, é quem se diferencia, porque aprende a disfrutar a energia e a vibração da festa, que para ser especial não é cotidiana, acontece apenas em fevereiro.

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