O currículo que não cabe em um diploma

Quando chamaram Luigi Lombardo para receber o diploma de International Politics and Government, na cerimônia de formatura da Bocconi, em Milão, meu coração disparou. Com o celular na mão, no alto do auditório, enquanto desejava gravar vídeos e fazer fotos, um filme passou pela minha cabeça. Não apenas os últimos anos, as mudanças de país, as escolas, a universidade, as viagens e as conquistas, mas principalmente tudo aquilo que não aparece em um currículo. Essa era a emoção que não cabia em mim.

Eu me lembrei de um menino no primeiro dia de aula que não queria deixar o colo da mãe para a professora, e do meu desejo em deixá~lo começar a ocupar os seus espaços. Depois veio na minha mente, o bebê que diante de uma obra de arte, observando atentamente as peças expostas e apontando aquelas de que mais gostava ria ou chorava, demonstrando quando queria permanecer ou seguir em frente. Lembrei das músicas que ele pedia para ouvirmos pelo número da faixa — 2, 17, 49 , números que ele via no painel do carro e memorizava, e da facilidade com que guardava essas referências mesmo quando mudávamos a sequencia nos pen-drives. Veio na minha mente também a lembrança das leituras que fazíamos para ele. Entre os dois e três anos, muitas vezes estava mais interessado em saber o número das páginas do que propriamente da história, e o quanto isso na época me incomodava. Pouco a pouco, começou a ganhar obviedade a paixão pela matemática. Ele gostava de identificar números nas placas dos carros, nas casas, nos apartamentos e nas quadras de Brasília.

São lembranças familiares, e não explicações retrospectivas para o adulto que ele se tornou. Seria fácil olhar para trás e transformar cada característica da infância em uma espécie de previsão do futuro. No entanto, uma pessoa não é resultado de uma sequência de sinais que seus pais conseguem decifrar antecipadamente. Há muito mais acontecendo entre a infância e a vida adulta: ambiente, oportunidades, escolhas, encontros, dificuldades, disciplina, perdas, mudanças e, principalmente, a maneira como cada indivíduo responde a tudo isso.

Foi justamente por isso que aquela cerimônia em Milão me emocionou tanto. Eu não estava olhando apenas para o resultado. Estava olhando para os anos que existiram entre aquele menino e o jovem de 20 anos que atravessava o palco para receber seu diploma, com um sorriso de orgulho que somente ele sabia, porque ninguém mais pode conhecer completamente o que mais tocou a sua história.

A formação que não aparece nas fotografias

Quando nos mudamos de Brasília para Kingston, na Jamaica, em 2019, a mudança demorou a chegar. Durante algum tempo, nossa casa foi montada com móveis emprestados por amigos. Luigi dormia em um colchão tipo futon e estudava naquele mesmo ambiente. Tinha 13 anos e estava começando uma nova vida em outro país.

Pouco depois, veio a pandemia. Vieram também a perda da avó materna, cinco meses no Brasil entre estudos e todas as circunstâncias daquele período, além da tristeza e da preocupação de acompanhar de perto a doença dos dois avós, ambos enfrentando câncer. Foi muita coisa para um adolescente.

E, ainda assim, Luigi continuou. Não de uma maneira heroica ou cinematográfica, mas da forma como muitas pessoas precisam continuar quando a vida não oferece a possibilidade de esperar que tudo se organize ou que a dor passe. Ele estudava, fazia suas atividades esportivas e de apoio em casa, e procurava preservar alguma normalidade dentro de uma realidade que havia mudado completamente. Às vezes, voltava da escola americana cansado de ouvir e falar somente em inglês por horas.

Mesmo naquele período, continuava tocando sua flauta transversal. Em determinado momento, também estava envolvido na criação da sonoplastia de um filme para a escola. Queria fazer bem feito. Queria entregar o melhor trabalho que pudesse.

Essa lembrança me acompanha porque, olhando hoje para o jovem que recebeu um diploma da Bocconi, percebo que algumas das características que mais admiro nele não aparecem nos certificados. A capacidade de continuar quando as circunstâncias não são ideais é uma delas.

Luigi enfrentou desafios que esta história não consegue, e talvez nem deva, contar em detalhes. Houve angústias, preocupações e responsabilidades que permaneceram longe das fotografias, das cerimônias e dos currículos. Ainda assim, ele estudou, trabalhou, ajudou outras pessoas, participou de projetos, mudou de país, entrou na universidade e continuou construindo a própria vida.

É fácil olhar para uma trajetória depois que ela está pronta e enxergar apenas a linha ascendente: boas escolas, reconhecimento acadêmico, Bocconi, Barcelona, experiências internacionais, prêmios, e, finalmente, a formatura em Milão. Mas uma vida não acontece em linha reta. Há coisas que ninguém vê. E talvez seja justamente nesses períodos que a formação de uma pessoa se revele de maneira mais verdadeira. Não se trata apenas do que ela consegue fazer quando tudo está bem, mas da maneira como encontra equilíbrio, responsabilidade, disciplina, perseverança e continuidade quando não está.

Quando a curiosidade encontra um caminho

Luigi nasceu em Brasília e viveu no Brasil até os 13 anos, tendo estudado no Leonardo da Vinci. Transferiu-se para Kingston, onde estudou na American International School of Kingston, na Jamaica, e depois na International School of Turin, na Itália. Aos 16 anos, ainda estudante em Turim, foi admitido na Bocconi. Aos 17, iniciou a graduação em Milão.

O percurso acadêmico foi internacional desde muito cedo, mas o que me chama atenção hoje é que as mudanças de país não apagaram algumas características que já estavam presentes na infância. A curiosidade permaneceu, apenas mudou de objeto.

No Leonardo da Vinci, em Brasília, Luigi participou do OnuVinci, uma simulação escolar inspirada nas Nações Unidas. Em 2017, representando o Qatar, recebeu o reconhecimento de Melhor Delegado e posteriormente foi homenageado pelo embaixador do país.

No ano seguinte, na mesma escola, foi designado delegado para os Estados Unidos, e recebeu a mesma premiação.

Na Jamaica, recebeu diversos reconhecimentos acadêmicos, incluindo o Renaissance Award, o Silver Presidential Award for Outstanding Educational Achievement e distinções no Honor Roll e Excellence Awards. Entre 2021 e 2022, foi reconhecido como Shining Star, em razão também de sua contribuição para a comunidade escolar.

Foi nessa época que passou a ajudar outros estudantes em matemática, inclusive oferecendo aulas gratuitas. Também participou de iniciativas de arrecadação que resultaram em doações para instituições locais, como a Safe Spot Helpline, Sophie’s Place e Mary’s Child.

Na International School of Turin, participou de diferentes atividades acadêmicas e de liderança, entre elas o TOMUN. Na cerimônia de formatura, recebu os reconhecimentos como Graduation Student Speaker e French Subject Award.

Compartilho essas histórias, especialmente, porque como mãe e como profissional que trabalha com desenvolvimento humano, aprendi que desempenho é apenas uma parte da formação.

Conhecimento pode ser adquirido. Competências podem ser desenvolvidas. Uma prova pode ser estudada. Um idioma pode ser aprendido^até com aplicativos. No entanto, existem outras aprendizagens que acontecem de maneira menos óbvias, como adaptar-se a um ambiente novo, criar novos vínculos, conviver com pessoas diferentes, lidar com frustrações, aprender a pedir ajuda, ajudar alguém que precisa e continuar fazendo o que precisa ser feito quando ninguém está olhando.

O mundo que veio depois

Na Bocconi, a formação ganhou outras dimensões. Luigi estudou durante um semestre na Universitat Pompeu Fabra, em Barcelona, pelo programa Erasmus. Em 2025, participou da competição FuturEU, organizada pela CIVICA, chegando à etapa final em Berlim entre as oito equipes finalistas, de um total de 110 participantes.

Em maio de 2026, participou do programa In-Company Training Abroad, em Lisboa, com experiências junto à EDP, Closer Consulting, Italian Chamber of Commerce for Portugal e Amplifon.

Quando olho para essa sequência, não vejo apenas uma lista de experiências internacionais. Vejo um jovem que, desde cedo, precisou aprender a circular entre diferentes ambientes. Brasília, Kingston, Turim, Barcelona, Milão e Lisboa são lugares diferentes, mas também representam diferentes momentos de adaptação, aprendizagem e construção de autonomia.

Talvez essa seja uma das dimensões mais importantes de uma educação internacional e uma das menos mensuráveis. Não se trata apenas de conhecer países ou estudar em boas instituições. Trata-se de aprender a entrar em uma sala onde ninguém o conhece, compreender códigos diferentes, ouvir pessoas com referências distintas das suas e encontrar o próprio lugar sem precisar deixar de ser quem é.

O que nós, pais, realmente conseguimos fazer

Existe uma parte da parentalidade que considero especialmente difícil: aceitar que, em determinado momento, o filho precisa começar a construir a própria vida sem que os pais organizem o caminho por ele, sem que planejem e decidam por ele. Na minha perspectiva profissional é um desafio ainda maior, porque em vários momentos eu sabia que eu devaria ser mais coach do meu filho do que a mãe que resolve.

Durante a infância, fazemos escolhas diariamente. Escolhemos escolas, médicos, atividades, horários, viagens. Tentamos proteger, orientar e antecipar dificuldades. Aos poucos, porém, essa função deve ser deslocada para os nossos filhos, e devemos descentralizar o nosso papel para que eles próprios ocupem o palco.

A formatura em Milão teve algo disso para mim. Eu estava ali. Estava emocionada, orgulhosa e, naturalmente, olhando para tudo o que havia acontecido até aquele momento. Mas quem atravessou o palco foi ele.

O diploma registrava uma conquista concreta: uma graduação em International Politics and Government pela Bocconi University. Para mim, entretanto, aquela cerimônia também registrava algo muito maior e muito menos mensurável: o resultado de vinte anos de formação de uma pessoa que precisou aprender, como todos nós, a lidar com aquilo que a vida coloca no caminho.

E a história não parou naquele palco.

Apenas dois dias depois, em 28 de setembro, Luigi começou o Master Program in Economics, na Università degli Studi di Torino. Milão ficou para trás e Turim abriu um novo capítulo.

Talvez seja cedo para saber exatamente onde essa combinação de política, economia, experiências internacionais e escolhas pessoais irá levá-lo. E acho bom que seja assim. Aos 20 anos, ainda há muito a descobrir, inclusive sobre si mesmo.

Hoje, olhando para aquela fotografia da formatura, penso que um diploma é uma espécie de registro oficial de uma conquista. Mas ele não conta a história inteira. Não conta o menino que contava páginas. Não menciona o adolescente dormindo em um futon enquanto esperava a mudança chegar. Não narra a pandemia, o luto, as preocupações com os avós, as responsabilidades que ficaram longe das fotografias ou as angústias que só quem estava por perto conhecia.

Não menciona a flauta transversal, a sonoplastia do filme, as aulas de matemática para outros alunos, as mudanças de país ou todas as vezes em que foi preciso simplesmente continuar, mesmo que houvesse um grito no peito.

Talvez seja justamente por isso que eu tenha sentido o coração disparar quando chamaram seu nome. Naquele momento, eu não estava vendo apenas um jovem receber um diploma. Estava vendo, por alguns segundos, tudo aquilo que um diploma não consegue contar. A identidade de um jovem que atravessou um palco, mas antes disso venceu várias fronteiras.

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