Inteligência artificial na Europa: inovar à suíça, inovar à italiana

“Os Estados Unidos inovam, a China replica e a Europa regula.” O conhecido lema, embora carregado de simplificações, traduz uma percepção bastante difundida sobre as diferentes abordagens à inovação tecnológica nas principais economias mundiais. Enquanto os Estados Unidos são frequentemente associados ao empreendedorismo disruptivo e à criação de novas tecnologias, e a China à rápida reprodução e adaptação de soluções existentes, a Europa costuma ser identificada com uma postura mais cautelosa, marcada pela regulamentação e pela proteção de direitos individuais. Mas até que ponto essa caracterização corresponde à realidade? E, sobretudo, será que existe uma única maneira europeia de inovar?

O modelo europeu de inovação apresenta diferenças importantes em relação ao americano. Nos Estados Unidos, o foco tende a estar no desenvolvimento de inovações disruptivas e altamente escaláveis, em um ambiente regulatório relativamente flexível e em um mercado de trabalho mais dinâmico. Soma-se a isso um elevado apetite ao risco, favorecido por uma maior tolerância ao fracasso e por um ecossistema de venture capital particularmente desenvolvido. Na Europa, por sua vez, a inovação ocorre em um contexto no qual se atribui maior importância aos direitos individuais, à sustentabilidade e à proteção dos trabalhadores. O ambiente regulatório da União Europeia é mais rigoroso, com especial atenção à soberania dos dados e à privacidade, como demonstra o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) e o Regulamento IA. Além disso, as legislações trabalhistas tendem a oferecer maior proteção aos empregados, enquanto a aversão ao risco costuma ser mais acentuada. Muitas vezes, as regulações europeias são aplicadas por empresas de países externos, através do “Efeito Bruxelas” estudado por Anu Bradford.

Essas diferenças institucionais e culturais contribuíram para que a Europa e os Estados Unidos trilhassem caminhos distintos no desenvolvimento tecnológico. As empresas americanas estiveram na origem de diversas inovações que transformaram mercados e modelos de negócio nas últimas décadas, como Uber, Airbnb e os carros autônomos da Tesla. Na União Europeia, em contrapartida, a trajetória foi mais marcada pela consolidação de setores já estabelecidos. Um indício dessa diferença pode ser observado no ranking das cinco empresas com maior número de patentes em cada região: entre 2000 e 2023, apenas a Siemens deixou o grupo europeu, sendo substituída pela Bayer. Nos Estados Unidos, a Qualcomm foi a única a permanecer entre as cinco primeiras durante todo o período.

Em novembro de 2025, na Cúpula sobre Soberania Digital em Berlim, Emmanuel Macron resumiu o dilema:

“Se deixarmos os americanos e chineses ficarem com todos os campeões em inovação, a Europa pode ter a melhor regulação do mundo, mas não regulará nada.”

Macron e Merz discutem implementação de IA soberana na administração pública
Foto da Wikimedia Commons

O diagnóstico de Macron dialoga com o de Philippe Aghion, Nobel de Economia de 2025, o qual tive a oportunidade de ouvir no Festival Internacional da Economia em Turim e no UBS Center Forum, em Zurique. De acordo com a teoria da destruição creativa de Aghion, no longo prazo o crescimento econômico é causado por um processo cumulativo de inovações que sucedem velhas tecnologias. Citando os relatórios de Enrico Letta e Mario Draghi, Aghion chama a atenção para a necessidade de aumentar a competitividade europeia em setores estratégicos, emulando o ecossistema americano de inovação sem renegar o atual estado de bem-estar social.

O ganhador do prêmio Nobel de 2025 Philippe Aghion apresenta o paradigma de crescimento schumpeteriano em Turim

Segundo Draghi, 61% do financiamento global de startups de IA vai para empresas americanas, 17% para chinesas e só 6% para europeias. Draghi estima que a Europa precisaria investir entre 750 e 800 bilhões de euros a mais por ano. Letta, por sua vez, aponta um mercado único incompleto e defende grandes projetos pan-europeus em IA. A associação de grandes empresas francesas CIGREF calcula que a dependência tecnológica custa à Europa cerca de 265 bilhões de euros por ano.

A dependência também é um risco de continuidade. Em junho de 2026, controles de exportação dos EUA suspenderam por quase três semanas o acesso a dois modelos de ponta da Anthropic, inclusive na Europa. O acesso foi restabelecido em 1º de julho.

Por que usar IA para avaliar políticas públicas, e por que a verificação decide?

David Yanagizawa-Drott, da Universidade de Zurique (UZH), pergunta se podemos automatizar a avaliação de políticas. As capacidades dos modelos tem avançado rapidamente e o preço por token tem caído mais de 4000% ao ano. Entre janeiro e abril de 2026, seu laboratório gerou mil artigos empíricos de avaliação de políticas. A promessa é ampliar o volume e a velocidade da análise de que governos e empresas precisam para decidir.

Motivações para a autimatização da avaliação de políticas públicas com IA
Apresentação de David Yanagizawa-Drott em Neuchâtel

Mas quem produz em escala também erra em escala. Em Neuchâtel, David destacou que erros podem surgir em manuscritos, dados e código, e que a verificação automatizada precisa ser rigorosa e testada de forma independente. O próprio projeto adverte que os artigos gerados não foram revisados por pares e não devem embasar políticas.

O caso Deloitte na Austrália mostra o custo da falta de verificação. Em outubro de 2025, a consultoria devolveu parte de um contrato de 440 mil dólares australianos com o governo. O relatório de 237 páginas, sobre o sistema de conformidade do bem-estar social, continha referências inexistentes e uma citação inventada atribuída a um juiz. A versão revisada passou a declarar o uso de IA generativa. A Deloitte afirma que as conclusões não mudaram. A lição não é que a IA falha, mas que sem verificação e transparência até uma das maiores consultorias do mundo entrega erros a quem decide.

Escritório da Deloitte
Foto da Wikimedia Commons

Que alternativas europeias existem?

Quem está criando a IA? - Oleg Lavrovsky
Apresentação de Oleg Lavrovsky em Neuchâtel

Embora numa escala muito menor do que a americana, há algumas alternativas no campo da IA na Europa. A startup francesa Mistral é a mais conhecida dentre elas, com sua interface de chat Mistral Vibe. Entre as outras grandes empresas e startups no setor, há também as alemãs SAP, Helsing e Celonis, além da sueca Lovable.

Na França, a Mistral ganhou em janeiro de 2026 um acordo-quadro do Ministério da Defesa, com implantação em infraestrutura nacional. Em novembro de 2025, França e Alemanha anunciaram uma parceria com Mistral e SAP para IA soberana na administração pública, com agentes para servidores e cidadãos, sistemas de gestão e laboratórios de inovação.

Em Neuchâtel, foi apresentado o Apertus, modelo totalmente aberto da Swiss AI Initiative que ultrapassou quatro milhões de downloads. Oleg Lavrovsky, da comunidade do projeto, apresentou a IA como infraestrutura pública, transparente e adaptável. Um caso prático vem do cantão Ticino, que decidiu migrar para o Apertus a tradução automática de documentos administrativos, a começar pelo escritório de migração, onde precisão e proteção de dados são críticas. Parte relevante do treinamento usou dados fora do inglês, o que importa em um país de quatro línguas. Os limites são reconhecidos: o modelo ainda fica atrás dos líderes de mercado em desempenho.

Quanto custa a soberania digital, e o que a freia?

Soberania tem preço. Segundo o relatório Draghi, o custo da eletricidade é uma barreira importante: cerca de metade das empresas europeias a vê como obstáculo ao investimento, e o consumo dos data centers deve crescer de forma expressiva até 2030. Há também barreiras operacionais e legais, como o caso Deloitte mostra, e o risco de fragmentação: se só França e Alemanha escalarem, países menores podem ficar na periferia do mercado único.

A execução tem sido mais lenta que o anúncio. O contrato-quadro previsto para meados de 2026 não foi assinado, e o ministério alemão informou que não há compras planejadas junto à Mistral. As empresas seguem cooperando. As empresas também são pragmáticas: 85% das alemãs consideram o país dependente demais de nuvens americanas, mas 71% as usam e só 8% preferem essa origem (Bitkom 2026). Siemens e Renault combinam modelos europeus, americanos e chineses, e a SAP afirma que infraestrutura totalmente local pode não ser viável nem desejável.

Quem usa IA na Europa, e como a cultura influencia?

Segundo o Eurostat, 20% das empresas da UE usavam IA em 2025. A Dinamarca lidera com 42%, e a Itália, com 16,4%, dobrou o índice de 2024, mas segue abaixo da média. O abismo italiano é de tamanho: 53% das grandes empresas usam IA, contra 16% das PMEs. Na Suíça, o UBS encontrou que seis em dez empresas usam IA, de forma pragmática e pontual (os dados não são comparáveis aos do Eurostat). Só um terço das PMEs suíças pesquisadas tem regras claras sobre quais dados os funcionários podem inserir.

Uso de IA por parte das empresas na União Europeia em 2024 e 2025.
Uso de inteligência artificial por parte das empresas europeias em 2024 e 2025 – Eurostat

Entre líderes, a diferença é de confiança. Uma pesquisa da Adecco com 2.000 executivos em 13 países colocou a Itália em último lugar em confiança no processo de desenvolver adaptabilidade e aprendizado contínuo (12%), enquanto 79% dos trabalhadores italianos se dizem dispostos a se adaptar. O gargalo está mais no topo do que na base.

A cultura ajuda a ler esse quadro, sem determiná-lo. Estudos com as dimensões de Hofstede em 61 países associam maior aversão à incerteza a menor prontidão para IA. A Itália pontua alto nesse índice (75), a Suíça moderado (58) e a Dinamarca baixo (23). É correlação, não causalidade, e a diferença italiana é explicada sobretudo por tamanho de empresa, competências e dados. A implicação prática: onde a cultura valoriza previsibilidade, governança transparente e verificação independente são condição para adotar.

A IA pode reduzir barreiras?

Conny Wunsch, da Universidade de Basileia, e Dragan Filimonovic e Christian Rutzer analisaram pesquisadores das ciências sociais e comportamentais. Quem adotou IA generativa publicou mais, com ganhos moderados de qualidade, sobretudo entre pesquisadores no início de carreira e em países onde o inglês não é a língua nativa: a produtividade dos autores que utilizaram IA aumentou aproximadamente 19% em 2023, 42% em 2024, e 72% em 2025.

Efeito da escrita assistida por IA na prodututividade e na classificação por revistas acadêmicas.

De forma análoga, a IA pode facilitar o dia a dia de profissionais de multinacionais cujo inglês não é nativo e de especialistas em início de carreira: redigir relatórios, propostas e comunicações para a sede com mais clareza, reduzindo o custo de transformar competência técnica em texto persuasivo. Na Suíça, onde convivem quatro línguas nacionais e o inglês corporativo, e na Itália, onde PMEs fornecem a cadeias globais, isso pode ampliar quem participa e quem é ouvido. É uma extrapolação minha, não um achado do estudo, e vem com dois cuidados: preservar a voz e a originalidade de cada cultura, e verificar o que a IA produz.

Conny Wunsch apresenta as limitiações do seu estudo sobre efeitos a longo prazo da IA generativa na produtividade acadêmica
Conny Wunsch apresenta as limitiações do seu estudo sobre efeitos a longo prazo da IA generativa na produtividade acadêmica.

Algumas questões ecoam a partir desses debates e tento respondê-las, mas deixando a reflexão em aberto.

A Europa está atrasada em inteligência artificial? Em investimento e escala, sim: segundo Draghi, as startups europeias de IA recebem 6% do financiamento global. Em adoção, o quadro varia: a Dinamarca tem 42% das empresas usando IA e a Itália, 16,4%. Essa percepção muda dependendo do país?

O que é IA soberana? É a capacidade de construir e operar sistemas de IA com infraestrutura, dados e modelos sob controle de um país ou bloco, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros. Isso é possível em todos os países? Do que depende?

Por que a Itália usa menos IA que a Dinamarca? Principalmente por tamanho de empresa, competências e qualidade de dados. A cultura, com maior aversão à incerteza, é um fator associado, mas não determinante. Quais outros componentes podem ser acrescentados?

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