Quando os grandes líderes sabem que é hora de sair: sucessão, legado e a coragem de mudar de papel

Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo – imagem gerada por IA

Em um único mês, o mundo assistiu a três despedidas. Cristiano Ronaldo, eliminado por Portugal nas oitavas de final, confirmou que a Copa do Mundo de 2026 foi a sua última. Lionel Messi levou a Argentina à decisão, perdeu para a Espanha na prorrogação e encerrou o torneio, segundo a imprensa, em “tri-vice”: vice-campeão, vice-artilheiro, vice na Bola de Ouro do Mundial. Neymar voltou à seleção brasileira depois de quase três anos afastado por lesão, viu o Brasil cair diante da Noruega já nas oitavas e anunciou, em meio a críticas sobre sua postura em campo, que aquele havia sido o fim de sua trajetória em mundiais.

Três craques. Três finais de ciclo. Três formas completamente diferentes de sair.

Este texto não é sobre futebol. É sobre um problema que qualquer conselho de administração, qualquer fundador e qualquer executivo sênior vai enfrentar mais cedo ou mais tarde: como saber a hora certa de deixar o protagonismo, e como fazer isso sem destruir o que foi construído. A Copa do Mundo apenas oferece, de forma condensada e pública, três estudos de caso que costumam levar anos para se revelar dentro de uma empresa.

Cristiano Ronaldo: sair pelas próprias regras

Aos 41 anos, Ronaldo chegou à sua sexta Copa do Mundo já sabendo, havia meses, que aquele capítulo se fecharia ali. Quando questionado sobre aposentadoria da seleção, sua resposta foi direta: “Terminarei quando eu quiser, não quando vocês quiserem.” Depois da eliminação, ele confirmou o fim do ciclo em Mundiais, mas evitou anunciar qualquer decisão maior “de cabeça quente”, prometendo pensar com calma e com a família.

Há algo instrutivo nesse comportamento. Ronaldo não foi surpreendido pelo relógio. Ele vinha sinalizando o fim havia pelo menos um ano, deu entrevistas medindo o próprio prazo (“um ou dois anos”), renovou contrato de clube até 2027 como quem mantém opções abertas e, quando o momento chegou, separou com clareza duas decisões distintas: encerrar um capítulo específico (as Copas do Mundo) sem precisar encerrar tudo de uma vez.

Executivos que administram bem a própria saída costumam fazer exatamente isso: fragmentam a transição em decisões menores e comunicadas com antecedência, em vez de tratar a sucessão como um evento único e traumático. O próprio Warren Buffett fez isso ao longo de quase duas décadas na Berkshire Hathaway. Já em 2018 ele havia transferido a Greg Abel a responsabilidade por dezenas de negócios do grupo; em 2021 confirmou publicamente que Abel seria seu sucessor; só em 2025 anunciou a data final da troca de cargo, mantendo-se como presidente do conselho quando Abel assumiu o posto de CEO em janeiro de 2026. Não foi uma saída. Foi uma sequência de saídas parciais, cada uma no momento escolhido por quem estava saindo, não imposta por uma crise.

Messi: sair com grandeza mesmo na derrota

O caso de Messi é diferente e, para muitos executivos, mais difícil de aceitar: às vezes a saída ideal não coincide com o resultado ideal. Aos 39 anos, ele liderou a Argentina até a final, foi o artilheiro da própria seleção na competição e ainda assim perdeu o título para a Espanha, a artilharia geral para Mbappé e o prêmio de melhor jogador do torneio para o espanhol Rodri. Em vez de justificativas, sua reação após a derrota foi simples: “Eles foram melhores, para ser honesto. Perdemos o jogo e aceitamos isso.”

O que fica não é o resultado da final, mas o padrão de uma carreira: três finais de Copa do Mundo seguidas, um título em 2022, e agora uma despedida em que a legitimidade da liderança nunca foi questionada, mesmo em derrota. Pesquisas sobre sucessão corporativa apontam que o uma transição de liderança é mais prejudicada por como o líder que sai se posiciona do que pelo desempenho do último ciclo. Líderes que assumem publicamente os resultados, mesmo os ruins, e que reconhecem o mérito de quem os superou, deixam um capital de confiança que sobrevive à própria saída. Líderes que buscam desculpas, ou que tentam reescrever a narrativa do próprio desempenho, corroem esse capital mesmo quando os números finais não eram tão ruins assim.

Messi saiu de uma final perdida sendo, ainda assim, tratado por quase todo o mundo do futebol como o maior nome de sua geração. Isso não é sorte de imagem. É consequência direta de como ele geriu o próprio ego no momento da queda.

Neymar: o risco do retorno mal calibrado

O terceiro caso é o mais delicado, e também o mais comum dentro das empresas, justamente porque depende de de expectativa coletiva. Neymar ficou fora da seleção brasileira por quase três anos depois de romper os ligamentos do joelho esquerdo em outubro de 2023, uma lesão grave o suficiente para carregar, no imaginário do torcedor, um peso emocional difícil de separar de qualquer avaliação puramente técnica.

A pressão para sua volta veio menos dele mesmo e mais do entorno: torcida, imprensa e ex-companheiros pediam a convocação havia meses, e o próprio técnico Carlo Ancelotti chegou a admitir publicamente que via nele um “escudo” importante para o grupo, além do futebol propriamente dito. Na eliminação para a Noruega, já nos acréscimos, Neymar ainda descontou o placar convertendo um pênalti. Contudo, o resultado não teve volta; o Mundial de 2026 foi a pior campanha do Brasil desde 1990. Permanece em aberto uma questão: até que ponto aquela convocação foi uma resposta técnica, ou foi uma resposta emocional a uma lesão que o próprio torcedor nunca chegou a superar?

Esse é o padrão que qualquer conselho de administração reconhece, muitas vezes sem admitir: a pressão para trazer de volta, ou para manter por tempo demais, uma figura histórica raramente nasce apenas na própria pessoa. Ela nasce em acionistas, em clientes, em um time inteiro que associa aquele nome a uma época de glória e projeta nele a expectativa de repeti-la.

A volta de Steve Jobs à Apple em 1997 é um bom exemplo de como esse movimento pode dar certo, mas é a exceção, não a regra. Estudos de firmas de governança corporativa mostram que retornos de “CEO fundador” costumam ter desempenho de mercado abaixo da média, e um dos motivos é justamente esse: a decisão responde a uma necessidade emocional coletiva, não a uma análise fria sobre se aquela pessoa é, hoje, com o corpo e o contexto que tem hoje, a resposta certa para o problema atual.

O ponto não é que Neymar “não devia” ter voltado, nem que uma carreira marcada por lesões e pelo maior número de gols da história da seleção brasileira se resuma a um episódio. É que uma volta carregada de expectativa emocional, seja de um torcedor, de um conselho ou de um mercado, precisa vir acompanhada de condições objetivas claras, sob pena de colocar quem retorna numa posição ainda mais frágil do que a que ele já estava.

Mudar de papel não é perder relevância

Há uma última observação que vale para os três jogadores e para qualquer executivo sênior: nenhum deles deixou de ser relevante ao mudar de papel. Ronaldo segue capitão da seleção portuguesa fora das Copas. Messi, aos 39 anos, continua sendo referência técnica e simbólica para uma geração inteira de jogadores mais jovens. A estratégia de jogo do atual técnico Lionel Scaloni na seleção argentina gira em torno de maximizar o impacto do talento de Messi. Segundo uma análise detalhada da ESPN, foi na Copa de 2026 que Messi recebeu mais passes perigosos e foi mais envolvido nos jogos, apesar de sua idade mais avançada. Até Neymar, cujo retorno foi o mais carregado de expectativa emocional das três histórias, segue sendo o maior artilheiro da história da seleção brasileira, um lugar que nenhum resultado de campo apaga. Não é à toa o jogador, dentre estes, que mais sofreu o peso da aposentadoria (veja mais detalhes neste texto da Forbes).

A pergunta que todo grande líder eventualmente precisa se fazer não é “ainda sou capaz de liderar este projeto específico?”. É outra, mais exigente: “qual é o próximo papel em que minha experiência gera mais valor do que minha presença no comando gera custo?”

Toda Copa do Mundo termina com um apito final que não pergunta se o time está pronto, se o craque quer mais um minuto em campo, se a torcida já aceitou o placar. No mundo corporativo, dificilmente um conselho, fundador, ou executivo recebe um sinal externo, objetivo e inquestionável de que chegou a hora certa. É exatamente por isso que essa decisão pesa tanto mais sobre quem precisa tomá-la: sem o apito do estádio, o próprio líder precisa ter a coragem de dá-lo a si mesmo. Grandes líderes, no auge ou na queda, têm a lucidez de ouvir o próprio apito antes que o estádio inteiro precise gritar por eles. Essa lucidez, mais do que qualquer título levantado, é o verdadeiro troféu de uma carreira bem administrada, dentro ou fora de campo.

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