O que uma pista de dança pode ensinar a líderes globais sobre conexão, identidade e presença

Aterrissei em Ibiza vindo de Turim no dia 15 de agosto, com os bilhetes já comprados para o Ushuaïa e o Hï: David Guetta, Calvin Harris e Francis Mercier eram os três nomes que me levavam até lá. O meu maior propósito era simples e complexo ao mesmo tempo: estar bem comigo mesma, e eu já havia escolhido, com rigor, os meus três terapeutas.
O primeiro show foi o de David Guetta, considerado o melhor DJ do mundo pelo ranking da revista britânica DJMag. Ao entrar no Ushuaïa, antes mesmo de a música começar a fazer efeito, senti algo que não esperava: o ambiente já era global. Pessoas do mundo inteiro, de idades e origens completamente diferentes, unidas ali por um único propósito. Havia uma energia positiva no ar, quase física, e uma ideia me ocorreu naquele momento e não me deixou mais durante toda a viagem: existem curas que acontecem no barulho, não apenas no silêncio. Enquanto eu dançava e repetia as letras das músicas, a alegria e a emoção de estar ali vivendo na intensidade máxima acalmava as minhas dores, o meu cansaço interior, e dava espaço para uma conexão profunda comigo mesma.
É uma frase que soa contraintuitiva para quem, como eu, trabalha profissionalmente com escuta, presença e regulação emocional. Mas foi exatamente isso que testemunhei ali: milhares de pessoas, em uma pista de dança, processando alguma coisa junto com estranhos, e saindo dali mais leves do que entraram.
Uma ilha que o mundo visita para se encontrar

Em Ibiza, a escala internacional não é uma ideia abstrata de relatório de turismo. Segundo dados da Aena, o aeroporto da ilha fechou 2025 com 9,14 milhões de passageiros, dos quais mais de 5,3 milhões vieram de conexões internacionais, um crescimento de 2,1% sobre o ano anterior. Reino Unido, Itália, Alemanha e Países Baixos lideram essa lista. Mas nenhuma estatística capta o que acontece depois que essas pessoas descem do avião e entram em um clube.
Ao longo daquela semana, transitei por quatro idiomas: inglês, espanhol, italiano e português, muitas vezes na mesma conversa. Houve algo que me marcou de um jeito particular: falar a minha própria língua com pessoas que não eram brasileiras. Italianos e espanhóis que haviam vivido ou trabalhado no Brasil e se apaixonado pelo país, e que guardavam o português como quem guarda um souvenir afetivo para ocasiões especiais. Tive a oportunidade de conviver com fãs do Brasil tão acolhedores que, às vezes, duvidava que tudo aquilo pudesse ser real, de tão bem orquestrado que parecia.
As conversas que nascem ali podem ser profundas. Algumas pessoas dividiram comigo intimidades, dores profundas que as fizeram pegar um avião e aterrissar em Ibiza, ou simplesmente conflitos internos. Outras conversas foram líquidas: leves, divertidas, mas com prazo de validade definido pelo fim da música, do chope ou do show; e isso não as tornou menos relevantes. O que unia essas pessoas por algumas horas não era a expectativa de continuidade, mas um propósito comum e muito mais imediato: sair de si mesmas, descarregar a tensão acumulada de meses de agenda e devolver ao corpo uma sensação de presença que a rotina raramente permite.
As pessoas não vão a esses shows em busca de vínculo. Vão em busca de uma espécie de descompressão coletiva e saem de lá, invariavelmente, mais leves do que entraram, mesmo sem trocar contato, número de telefone ou perfil nas redes sociais com ninguém.
“Ibiza não é só festa.”

No hotel, uma espanhola que mora na ilha fez questão de me dizer: “Ibiza não é só festa”. Ela tinha razão. O azul quase irreal do Mediterrâneo, as enseadas escondidas, os passeios de barco até Formentera, o pôr do sol que vira ritual coletivo, uma gastronomia que vai do peixe grelhado servido em taberna de pescador à cozinha autoral: tudo isso existe, e existe com fartura.
Mas a frase me deixou com uma pergunta mais difícil de responder: se o principal atrativo fosse apenas o mar, por que Ibiza, e não a Sardenha, as ilhas gregas ou a Córsega, destinos de beleza comparável e, em muitos casos, mais acessíveis?
Os números ajudam a esclarecer. Segundo o IMS Business Report 2025/26, em 2025, a bilheteria dos clubes da ilha somou 160 milhões de euros, alta em relação aos 150 milhões do ano anterior, mesmo com uma queda no número médio de eventos por casa noturna. E esse valor considera apenas o ingresso: mesas, bebidas e serviços associados ficam de fora da conta, o que sugere um impacto real ainda maior sobre a economia local.
O comportamento de quem visita confirma o padrão: 41,1% dos turistas internacionais viajaram acompanhados de amigos, e 52,8% já haviam passado férias na ilha antes, de acordo com o Sistema de Inteligência Turística (SIT) da ilha. É o padrão de quem retorna a um ritual.
O mar convence alguém a considerar Ibiza. A música converte essa consideração em identidade, na frase “vou para Ibiza” dita com o mesmo peso emocional de quem anuncia uma peregrinação, não apenas uma viagem. O mar é um ativo natural extraordinário, mas replicável em dezenas de litorais do mundo. A cena eletrônica é um ativo cultural construído ao longo de décadas, e é ela que separa Ibiza de qualquer outro paraíso costeiro do Mediterrâneo.
Um mesmo território, ritmos diferentes
Ao longo daquela semana, vivi propostas musicais bem distintas entre si, e há algo revelador nas origens dos artistas que as assinam. David Guetta começou tocando em clubes de Paris no fim dos anos 1980, ainda adolescente. Calvin Harris cresceu em Dumfries, pequena cidade escocesa, e produzia suas primeiras faixas em um computador doméstico enquanto repunha prateleiras de supermercado para pagar equipamento de DJ. Nenhum dos dois nasceu no centro de nada. Construíram, cada um a seu modo, um lugar de encontro global a partir de pontos de partida bastante modestos, e talvez seja essa trajetória, mais do que qualquer fórmula de produção, o que explica por que suas músicas funcionam em qualquer idioma, para qualquer plateia.
Já no palco de Francis Mercier, o que se ouvia era outra coisa: uma sonoridade marcada pelo afro house, gênero que costura matrizes africanas, caribenhas e latino-americanas em uma única textura. O que o público leigo costuma chamar de “techno” é, na prática, um ecossistema muito mais amplo: house, afro house, tech house, techno propriamente dito, e um número crescente de fusões que nascem do encontro entre culturas distintas.
Segundo o IMS Electronic Music Business Report 2025/26, a indústria global da música eletrônica está avaliada em 15,1 bilhões de dólares, um crescimento de 7% em relação ao ano anterior, a taxa mais acelerada desde 2024. O gênero já figura entre os três mais relevantes em praticamente todos os seus principais mercados, com expansão particularmente forte em países do Sul Global.
Os nomes que me levaram a Ibiza nesse verão
Calvin Harris era, sem disputa, o show que eu mais esperava daquela semana. Vê-lo ao vivo pela primeira vez foi a realização de um sonho antigo, e nada do que vim a experimentar depois superou aquela emoção específica. Ouvir “Summer” com os efeitos de iluminação no palco e tantas vozes emocionadas cantando em uníssono foi muito marcante.

Porém foi David Guetta quem abriu a viagem, e o peso de assistir ao nº 1 do mundo em atividade ficou mais claro depois. Guetta venceu o DJ Mag Top 100 pela quinta vez em 2025, igualando o recorde histórico de Martin Garrix e Armin van Buuren, e o fez após mais de quatro décadas de carreira, ainda lançando música praticamente todo mês. Assistir a ele já no primeiro show da semana deu o tom do que estava por vir: um artista no auge absoluto de uma trajetória construída desde os clubes parisienses dos anos 1980.

Mas Francis Mercier trouxe uma surpresa que também vale registrar. No meio de sua apresentação, comecei a reconhecer referências brasileiras entrelaçadas na seleção musical, faixas e samples que remetiam diretamente à minha própria cultura, tocando para um público de dezenas de nacionalidades que talvez nunca tivesse pisado no Brasil. Foi bonito ouvir minha língua e minha música circulando ali, acolhidas por gente que as descobria naquele instante.

O que uma pista de dança ensina sobre liderar pessoas
Como coach transcultural, atuando no mercado global junto a empresas e organismos internacionais, meu trabalho consiste em criar pontes entre pessoas de diferentes origens. Na abordagem que desenvolvo, isso significa ajudá-las não apenas a se comunicar, mas a reconhecer os códigos culturais, expressos ou implícitos, que orientam comportamentos, relações e decisões. Um gesto de aprovação em um país pode soar como indiferença em outro. Uma pausa de silêncio que, para uns, significa reflexão, para outros pode parecer desconforto ou recusa.
Em Ibiza, essa mesma leitura de contexto acontece com o corpo inteiro, e de forma quase instantânea. Não é tão diferente do que se exige de quem lidera equipes distribuídas entre diferentes países, fusos horários e idiomas: interpretar silêncios, perceber o ambiente antes de agir sobre ele, reconhecer distintos graus de formalidade e compreender concepções diversas de tempo, autoridade e confiança. O coaching transcultural atua justamente nesse espaço intermediário, o intervalo entre o que é dito e o que é, de fato, compreendido. Ali, diferenças que poderiam gerar ruído e desalinhamento se transformam em possibilidade real de conexão, cooperação e entendimento mútuo.
Conectar culturas não significa uniformizá-las, mas construir uma base comum forte o suficiente para que as diferenças coexistam sem se anular. Na música, essa base é o ritmo. Nas organizações, ela costuma tomar outra forma: um propósito nítido, uma visão compartilhada, um modo de trabalhar que permita a cada pessoa contribuir sem precisar abrir mão de quem é. O líder que insiste em impor uma única cadência quase sempre obtém conformidade. Raramente obtém conexão, e é essa distinção, sutil, mas decisiva, que separa quem administra equipes de quem de fato as lidera.
A música eletrônica não resolve as tensões culturais do mundo. Mas ela demonstra, com uma clareza difícil de contestar, que pessoas profundamente diferentes conseguem encontrar uma frequência comum sem precisar deixar de ser quem são. Não é preciso que todos dancem exatamente da mesma forma. É preciso que reconheçam o mesmo ritmo, e que haja espaço para que cada um dance dentro dele com autenticidade, respeitando os limites. Essa adequação marca a diferença entre uniformidade e conexão real.
Voltei de Ibiza com a sensação rara de ter realizado um sonho antigo, depois de viver dias e noites na intensidade máxima da presença, em paz, em introspecção, sozinha, ou no meio da multidão. A partir dessas reflexões, ganhei uma compreensão renovada sobre o meu próprio trabalho. Pensei enquanto fazia snorkeling, praticava SUP, mergulhava nos mares azuis de Ibiza ou permanecia atenta às letras das músicas, às luzes do palco, às danças e aos corpos que, por algumas horas, pareciam falar a mesma língua.
Entendi, com o corpo antes da razão, que existem curas que acontecem no barulho, e não apenas no silêncio; entre estranhos que se tornam, por uma noite, parte da mesma multidão. E talvez seja justamente aí que esteja um dos desafios mais urgentes de qualquer liderança global: não impor um único compasso, mas criar as condições para que vozes distintas possam se encontrar e, juntas, descobrir o seu próprio ritmo.

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