Em 2025, a Suíça sediou um dos eventos anuais mais importantes da Europa em Basileia: o Eurovision, uma competição internacional de música organizada anualmente pela União Europeia de Radiodifusão. Em um dos intervalos do torneio, a cantora Sandra Studer lançou uma pergunta instigante: “O que você pensa da Suíça quando pensa na Suíça?”
Junto à apresentadora Hazel Brugger, Sandra Studer demonstrou com uma performance que a Suíça não é apenas a terra dos chocolates, relógios e do tenista Roger Federer. A atuação lista uma série de invenções suíças, como a Internet, o zíper e a guitarra elétrica.
Ao longo dos últimos anos, tive a oportunidade de visitar a Suíça diversas vezes, por trabalho e turismo. Não apenas o país — mas três versões dele: a Suíça italiana, a alemã e a francesa.
Aos olhos desatentos, elas parecem vizinhas bem organizadas. Mas para quem trabalha com culturas ou toma decisões em ambientes onde elas se encontram é impossível não perceber que cada região opera segundo lógicas distintas de comunicação, negociação e autoridade. Os ritmos, os gestos e até os silêncios têm códigos próprios. E, ainda assim, o país funciona.

Na interseção entre essas culturas, há algo que as atravessa sem anulá-las: uma identidade comum que não se impõe por uniformidade, mas por confiança construída metodicamente, repetida até se tornar norma. Um tipo de cultura que sobretudo fabrica credibilidade, consenso e estrutura.
Onde termina o idioma e começa a identidade?
A Suíça italiana valoriza relações próximas, mas mantém distinções claras entre esferas pública e privada. A sociabilidade vem acompanhada de regras tácitas, o calor é equilibrado por uma formalidade discreta.
A Suíça alemã comunica eficácia por meio da forma: clareza, previsibilidade, precisão. Aqui, o compromisso verbal tem peso contratual, e a confiabilidade se expressa menos por entusiasmo e mais por consistência.
A Suíça francesa cultiva a nuance. O discurso é mais elaborado, o dissenso é moldado com diplomacia, e o consenso nasce mais de elaboração cuidadosa do que de confronto direto.
Para quem ocupa cargos de liderança global, tudo isso é familiar. São os mesmos desafios vividos em reuniões multiculturais, negociações intergovernamentais e estruturas matriciais. O que surpreende é ver essas lógicas operarem dentro de um mesmo Estado, e, mais do que coexistirem, sustentarem um sistema funcional e altamente eficiente.
O que, de fato, a Suíça “fabrica”?
A resposta mais comum seria relógios, chocolates, queijos, máquinas de precisão, farmacêuticos, sistemas de medição, processos industriais com baixíssimo erro tolerado. Tudo isso existe e é mundialmente reconhecido. No entanto há algo mais valioso e menos visível sendo exportado: 1) a previsibilidade como produto nacional; 2) a reputação como ativo econômico; 3) a colegialidade como arquitetura de decisão; 4) a convivência como tecnologia.
A Suíça entrega com exatidão. Não só bens físicos, mas compromissos, regras, procedimentos. Para CEOs, isso significa segurança regulatória. Para diplomatas, significa estabilidade institucional. Para funcionários de organismos multilaterais, significa confiabilidade operacional. Trata-se de uma previsibilidade socialmente construída, a qual é ensinada, praticada e internalizada. Poucos países tratam reputação com tamanha seriedade.
Essa cultura parte do Estado. O país é governado por um conselho federal de sete membros, sem uma figura única de poder. As decisões são tomadas em conjunto e, uma vez acordadas passam a ser defendidas por todos. Isso não é só desenho institucional. É cultura aplicada à governança.
Executivos seniores, membros de conselhos e representantes de organismos internacionais reconhecem o valor desse modelo: como chegar a decisões legítimas, mesmo quando não há unanimidade, e depois sustentá-las com coesão.
A Suíça não neutraliza as diferenças, ela as organiza. Seu federalismo é ativo, sua democracia direta é permanente, seu multilinguismo não é simbólico, é logístico. Isso exige mecanismos de escuta ativa, de adaptação, de calibragem contínua. Convivência não é um valor abstrato, mas uma tecnologia social. Os direitos “dos outros” são esclarecidos para que possam ser utilizados, como, por exemplo, o direito gratuito à vaga de deficiente físico mesmo em locais privados.
O “Swiss made” não é um rótulo decorativo, mas um certificado de controle, transparência, neutralidade, precisão. Em um mundo onde marcas, governos e instituições são julgados em tempo real, essa cultura de baixa teatralidade e alta responsabilidade se traduz em vantagem, pois evita desgastes e surpresas negativas.
O que isso exige de quem chega

Liderar ou representar organizações na Suíça, ou em ação conjunta, exige mais do que tradução de idiomas. Exige leitura fina de códigos culturais, autoconsciência comunicativa e a capacidade de transitar entre estilos de decisão sem perder clareza nem integridade.
O risco, para líderes globais, não é o conflito explícito, mas o mal-entendido sutil: um silêncio que não era reprovação, mas cautela; uma resposta breve que era um “sim” definitivo, mas foi interpretada como falta de entusiasmo; um processo lento que, na verdade, produziu uma decisão com mais aderência institucional.
As vendas acontecem com clareza e criação de confiança, sem a pressão de manipular e convencer. Na Suíça, forma e conteúdo raramente se separam. E quem entende isso opera com muito mais eficácia.
O “Swiss made” como competência global
Por fim, o verdadeiro “Made in Switzerland” talvez não esteja nos produtos, mas no posicionamento, na postura, no modo de operar. Isso vale para Estados, empresas, diplomacias e qualquer organização internacional.
É uma competência rara fazer a ponte entre culturas sem esvaziar nenhuma delas, produzir segurança sem paralisar os processos, sustentar reputação como política de Estado e de empresa.
Se há algo que o mundo pode importar da Suíça, é isso. E como toda competência estratégica, isso se aprende e se treina. Se quiser aprender por meio de coaching individual, em grupo, ou capacitação de equipes, deixe um comentário ou mande um e-mail para coaching@adrianalombardo.com

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