Sofrimento no trabalho: a dor de executivos neurodivergentes

O debate sobre saúde mental no ambiente corporativo avançou significativamente nos últimos anos. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 15% da população economicamente ativa convive com algum tipo de transtorno mental. O impacto econômico é expressivo. Estima-se que, globalmente, sejam perdidos cerca de um trilhão de dólares por ano em decorrência da queda de produtividade associada, sobretudo, à ansiedade e à depressão – com ou sem sofrimento.

Ainda assim, quando o foco se desloca para posições executivas, o sofrimento psíquico tende a permanecer invisível, silenciado ou subnotificado. Em contextos onde liderança é associada à resiliência inabalável e à capacidade de “dar conta de tudo”, muitos profissionais aprendem a operar sob um pacto implícito: sustentar resultados, mesmo à custa do próprio equilíbrio interno.

Esse sofrimento raramente se manifesta como colapso imediato. Ele se expressa de forma mais sutil e persistente: fadiga cognitiva crônica, hipervigilância, irritabilidade, dificuldade de priorização, distanciamento emocional, sensação de inadequação ou perda progressiva de sentido no trabalho. O executivo continua funcionando, muitas vezes de forma exemplar, mas paga um preço psíquico elevado.

Aspectos funcionais do sofrimento psíquico na liderança

Do ponto de vista funcional, a ansiedade crônica compromete processos atencionais, capacidade de priorização e flexibilidade cognitiva. Estados depressivos afetam motivação, percepção de autoeficácia e engajamento, impactando a relação do líder com o próprio trabalho e as equipes.

Em adultos com TDAH, observa-se frequentemente uma combinação paradoxal: elevada capacidade criativa, pensamento estratégico e rapidez associativa coexistindo com desafios na gestão do foco, do tempo e da energia mental. Já em perfis no espectro autista, as dificuldades tendem a emergir sobretudo em situações de sobrecarga sensorial, ambiguidade comunicacional, leitura de normas sociais implícitas e jogos de poder pouco explícitos do contexto organizacional.

Essas condições não são incompatíveis com alto desempenho. Ao contrário, muitos executivos alcançam posições de destaque justamente por essas características. O desafio reside no fato de que, sem estratégias adequadas de autorregulação, organização cognitiva e gestão emocional, aquilo que sustenta a performance também pode se tornar fonte contínua de exaustão.

Quando a cultura organizacional amplifica o sofrimento

O sofrimento psíquico não ocorre no vácuo. Ele interage diretamente com a cultura organizacional, o estilo de liderança predominante, o grau de previsibilidade do ambiente e o contexto sociocultural no qual o executivo está inserido. Em culturas de alta pressão, baixa margem de erro e comunicação indireta, a carga psíquica tende a se intensificar.

Ao longo da minha atuação, um padrão recorrente se repete: profissionais que funcionam extremamente bem “para fora”, mas vivem uma experiência interna marcada por cansaço mental, isolamento emocional e constante sensação de alerta. Muitos abrem mão do descanso, do lazer e até do convívio familiar como estratégia, consciente ou não, de manutenção da performance.

Neurodiversidade, cultura e complexidade organizacional

Em ambientes globais, essa complexidade se aprofunda. Executivos expatriados ou atuando em contextos interculturais lidam simultaneamente com exigências de adaptação cultural, perda de referências simbólicas, redefinição de identidade profissional e, muitas vezes, solidão relacional.

A forma como o sofrimento psíquico é percebido, nomeado e acolhido varia significativamente entre culturas. Em alguns contextos, falar sobre saúde mental é sinal de maturidade; em outros, ainda é interpretado como fragilidade. Esse desencontro cultural pode aumentar o isolamento subjetivo do líder, que não encontra linguagem, nem espaço, para expressar o que vive internamente.

Nesse cenário, competências como consciência cultural, leitura de contexto, escuta qualificada e pensamento sistêmico deixam de ser apenas “soft skills” e tornam-se fatores críticos tanto para a eficácia da liderança quanto para a preservação da saúde mental.

A dor silenciosa da alta performance

Ainda existe, sobretudo em cargos de liderança, uma dificuldade significativa em falar sobre sofrimento psíquico sem receio de estigmatização. Muitos executivos recorrem a estratégias compensatórias sofisticadas: trabalham mais, estudam continuamente, controlam cada detalhe, evitam pausas e mantêm uma imagem de absoluto domínio da situação.

No curto prazo, essas estratégias funcionam. No médio e longo prazo, o custo é alto. A saúde mental se fragiliza, as relações familiares sofrem e a capacidade de presença genuína diminui. Familiares frequentemente percebem o descompasso antes do próprio executivo, mas nem sempre são ouvidos. O medo de parecer vulnerável, de comprometer a carreira ou de enfrentar dificuldades de recolocação em um mercado competitivo silencia essas vozes.

O Mental Coaching como espaço de integração

O Mental Coaching atua como uma prática estruturada de reflexão aplicada, voltada ao funcionamento cognitivo, emocional e comportamental em contextos de alta complexidade. Não substitui acompanhamento psicoterapêutico ou médico, mas o complementa, oferecendo ao executivo um espaço seguro para desenvolver metacognição, ampliar a consciência de padrões internos e fortalecer estratégias de autorregulação.

Entre os objetivos centrais desse trabalho estão:

  • ampliar a clareza mental em contextos de pressão;
  • reduzir respostas automáticas disfuncionais;
  • alinhar identidade, valores e prática profissional;
  • construir estratégias sustentáveis de desempenho ao longo do tempo.

Falar de sofrimento psíquico na liderança não é fragilizar o papel executivo. É reconhecer que desempenho sustentável exige integração entre mente, emoção, contexto e cultura. Organizações que compreendem isso não apenas protegem seus líderes, mas elevam a qualidade das decisões, das relações e do futuro que constroem.

Quer marcar uma conversa telefônica ou videoconferência e me expor o seu caso? Mande um e-mail para coaching@adrianalombardo.com

Leia também:

Por que a ansiedade pode surgir depois da mudança — e não antes

Quem vê o executivo na sua vulnerabilidade?

Beautiful Minds inspira um novo olhar para a inclusão

Medo real e medo imaginário

O medo no ambiente organizacional

Como lidar com o estresse e a ansiedade?

Quais competências essenciais diferenciam um bom líder hoje?

Como alinhar os três cérebros pode reduzir a ansiedade

Como lidar com as vulnerabilidades, vivendo no exterior?

Share

1 comentário em “Sofrimento no trabalho: a dor de executivos neurodivergentes

  • Já passei por esse sofrimento, por conta da pressão no ambiente de trabalho, mas no meu caso desenvolvi uma gastrite, causada pela ansiedade e estresse diário. É importante falar mais sobre esse assunto, para que as pessoas se conscientizem de que precisam mudar de atitude , pelo bem de sua saúde física e mental.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *