
A transformação em direção a economias sustentáveis é uma realidade global irreversível. No centro dessa evolução está a economia circular: um novo paradigma que rejeita o modelo linear tradicional de “extrair, produzir, descartar”.
Segundo o Parlamento Europeu,
Na Europa, a adoção da economia circular como modelo de produção está se tornando cada vez mais importante. Isso tem se traduzido em maior pressão regulatória, como no caso do Índice de Circularidade criado na Itália em 2024. Essa norma, conhecida pela nomenclatura UNI/TS 11820, que embora ainda não obrigatória acarreta em maior competição entre empresas.
Além das pressões regulatórias e ambientais, a economia circular no setor automotivo é relevante sobretudo porque automóveis e seus componentes representam um dos maiores volumes de materiais e energia circulante na indústria global. Segundo pesquisas recentes, estima-se que o consumo de matérias primas seguirá aumentando nos próximos anos. Mais especificamente, espera-se uma maior demanda por minerais como o lítio e o cobalto, fundamentais na produção de veículos elétricos.

Ultimamente, a extração do lítio, assim como a de terras raras como o térbio e o ítrio, têm se tornado mais desafiadora por motivos geopolíticos e sociais. A maior parte das reservas de terras raras está na China, um quase monopólio global dominando a cadeia de produção da extração ao refino. Essa vantagem estratégica tem preocupado o governo Trump, principalmente após a restrição da exportação de terras raras por parte da China.

Economia circular como estratégia sistêmica
Segundo os pesquisadores Halia M. Valladares Montemayor e Rayyan Hamza Chanda, o conceito de economia circular está estruturado em torno de três pilares estratégicos:
- Ecodesign, que envolve projetar produtos para facilitar reparação e desmontagem;
- Logística reversa e remanufatura, que asseguram que componentes retornem ao ciclo produtivo;
- Cadeias de valor colaborativas, que conectam fabricantes, fornecedores, recicladores e consumidores.
Esse enfoque vai além de processos técnicos isolados, enfatizando a integração sistêmica entre economia, meio ambiente e sociedade. A remanufatura, por exemplo, não é simplesmente reciclagem de material: ela restaura um componente usado a condições equivalentes ao novo, gerando benefícios ambientais profundos (menos energia e recursos extraídos) e vantagens econômicas substanciais para as empresas que a incorporam.
Evidências e pesquisas acadêmicas relevantes
Uma pesquisa recente realizada pelo Politécnico de Milão no contexto do projeto europeu TREASURE aponta para o impacto estratégico da economia circular no setor automotivo:
- Aplicações da Indústria 4.0 como facilitadoras da circularidade: estudos mostram que tecnologias digitais e automação podem ajudar a integrar rastreabilidade de materiais, otimizar desmontagem automatizada e tornar a remanufatura economicamente viável em larga escala.
- Modelos de remanufatura estrategicamente posicionados: pesquisas acadêmicas enfatizam que a seleção de modelos de remanufatura, seja interna ou realizada por terceiros autorizados — depende da percepção de valor do consumidor e pode afetar tanto a lucratividade quanto os impactos ambientais.
- Uso de tecnologias emergentes como digital twins: estudos exploram como representar digitalmente componentes (por exemplo, baterias de veículos elétricos), apoiando fases de desmontagem, remanufatura e reciclagem com precisão e eficiência aumentadas.
Exemplos concretos de economia circular no setor automotivo
a) Hub de Economia Circular em Turim — Itália
Um dos casos mais emblemáticos na Europa é o Circular Economy Hub inaugurado no complexo de Mirafiori, em Turim, Itália, que operacionaliza práticas circulares em escala industrial. Neste centro:
- Motores, transmissões e baterias são desmontados, remanufaturados e retornam ao ciclo produtivo, prolongando seu uso e reduzindo a demanda por matérias‑primas novas;
- A estratégia 4R (Remanufaturar, Reparar, Reutilizar e Reciclar) é aplicada integralmente, com foco em maximizar valor ambiental e econômico;
- A infraestrutura emprega centenas de profissionais e serve como referência industrial europeia em circularidade.
Esse modelo combina sustentabilidade com performance econômica, mostrando que a circularidade pode ser uma vantagem competitiva, não somente um requisito regulatório.
b) Estudos Corporativos e Setoriais
Grandes players automotivos já implementam práticas circulares em diversas frentes:
- BMW recupera aço e alumínio de veículos fora de uso para reutilização;
- Volkswagen implementa ciclos fechados de produção para reaproveitar sucata interna;
- Renault comercializa partes remanufaturadas como alternativa sustentável ao novo, estendendo a vida útil de peças e reduzindo desperdícios.
Benefícios estratégicos da circularidade
Para o setor automotivo, além da redução de custos, a circularidade favorece o cumprimento de standards ESG. Um exemplo conhecido é o da extração do lítio no Chile, numa região conhecida como uma “zona de sacrifício.” De acordo com uma reportagem do El País, o desenvolvimento na área do Salar de Atacama é inegável. Contudo, pesquisadores indicam que “a mineração está secando o deserto.” A participação empresarial neste tipo de dinâmica pode levar a uma piora na performance ESG dessas empresas, o que pode acarretar em menor captação de recursos.
Em contextos urbanos, uma maior adoção da circularidade favorece o alinhamento entre indústria, inovação e sustentabilidade, chave de políticas como o Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal). No contexto italiano, um exemplo é o novo edital lançado pela Città di Torino, que disponibiliza mais de €1,8 milhão em recursos não reembolsáveis para pequenas e médias empresas e entidades do Terceiro Setor interessadas em desenvolver projetos de inovação circular integrados à cidade.
Além dos benefícios ambientais, como redução das emissões de carbono e menor pressão sobre recursos naturais, a economia circular oferece vantagens econômicas tangíveis para empresas inovadoras:
- Redução de custos pela reutilização de materiais e componentes;
- Mitigação de riscos de escassez de insumos críticos;
- Criação de novas fontes de receita a partir de peças remanufaturadas e serviços de valor agregado;
- Aumento da resiliência da cadeia de suprimentos em contextos de volatilidade global.
Liderança organizacional na era da circularidade
A economia circular está redesenhando o setor automotivo mundial, transformando desafios ambientais em vantagens competitivas sustentáveis. O uso de abordagens sistêmicas, tecnologias disruptivas e modelos de negócios inovadores (como remanufatura avançada e colaboração ao longo da cadeia) comprova que a circularidade não é um custo, mas um ativo competitivo e um vetor de crescimento sustentável.
A adoção eficiente da economia circular, especialmente em cadeias complexas como a automotiva, não ocorre exclusivamente por meio de processos ou tecnologia: ela emerge de uma visão estratégica e cultural, orientada por líderes que compreendem a dinâmica sistêmica do negócio sustentável.
Esses líderes precisam desenvolver um conjunto integrado de habilidades:
- Pensamento estratégico para alinhar sustentabilidade e performance de longo prazo;
- Capacidade de conduzir mudanças culturais que incentivem experimentação e colaboração interfuncional;
- Competências para integrar indicadores financeiros e de impacto socioambiental na tomada de decisão.
É aqui que o Coaching Executivo se torna um diferencial-chave. O coaching ajuda líderes, tanto no nível direto de tomada de decisão quanto na construção de cultura organizacional, a converter conhecimento em ação, impulsionando transformações que vão além de programas pontuais de sustentabilidade.
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