
Para conhecer Budapeste em poucos dias, e compreender seu ritmo intenso e jovial, precisei dormir poucas horas para conseguir viver a cidade em dois tempos: o da luz do dia e o da intensidade da noite.
Compartilhei minhas impressões mais estruturais no artigo “Budapeste: desafios e oportunidades de uma capital em transformação”, onde analiso a cidade sob a perspectiva de negócios, cultura e contexto executivo. No entanto, há lugares que ao invés de pedir um ritmo frenético, pedem silêncio e presença.
Às margens do Danúbio, a poucos metros do Parlamento de Budapeste, encontra-se o Shoes on the Danube Bank. Sessenta pares de sapatos de ferro alinhados junto ao rio falam sobre vidas interrompidas.

Entre 1944 e 1945, durante a ocupação da cidade por milícias do regime fascista húngaro, aliado da Alemanha nazista, milhares de judeus foram executados. A vida deles não tinha valor, a dor de quem deixavam tampouco, mas os sapatos – sim. Dessa forma, antes de serem assassinados, em meio ao pânico e aos seus últimos pensamentos, eles eram obrigados a retirar os sapatos. Os corpos caíam no rio. Os sapatos permaneciam na margem.
Mais do que indivíduos específicos, esse memorial representa uma ausência coletiva. Podemos passar diante de algo assim correndo com nossos sapatos apressados, seguindo um ritmo egoísta de cuidar apenas da nossa própria vida ou do nosso trabalho. No entanto, em meio a uma cidade que hoje atrai investimentos, inovação e talento global, esse espaço introduz uma ruptura no ritmo socio-cultural e político. O fluxo do rio continua, mas as vidas se foram para sempre.
E nesse contraste entre movimento e permanência, cabe a reflexão sobre o que precisamos deixar seguir no seu próprio ritmo e natureza, mas, principalmente, o que as nossas mãos precisam interromper, precisam impedir que sigam sem mudança.
Na liderança global, o ritmo das demandas, da tomada de decisão é elevado, mas a pausa e a reflexão continuam sendo as armas essencias para um mundo mais justo, ético e humanizado.

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