Triste espetáculo

Respeito e valorizo muito a vida, em todas suas formas, incluindo animais e vegetais. Por isso, sou contrária a espectáculos, tais como aqueles de parques temáticos e circos, que, para entreter, estabelecem uma relação de domínio, medo e dor dos humanos com animais selvagens. Por exemplo, apesar de achar maravilhoso estar perto dos golfinhos, já não me atrai mais assistir os espectáculos com esses animais, pois logo estabeleço com eles uma relação de empatia que me faz sentir o quanto sofreraram para serem admirados pelo público. Na Indonésia, em 2001, ao final de um desses espectáculos, tive a possibilidade de acariciar um golfinho e admirá-lo de perto, mas, com toda tristeza, vi várias queimaduras causadas por seus pulos através aros de fogo. Aquela vez, como já desconfiava, percebi com absoluta clareza que seria impossível que animais “naturalmente livres”, mas “humanamente domesticados”, aprendessem tantos malabarismos perigosos sem pagar um preço.

No final do ano passado, estive em Orlando, nos Estados Unidos, e lá muitas pessoas me recomendaram de assistir ao show da orca Shamu no parque aquático SeaWorld: por isso, fui lá e levei meu filho. Entretanto, meu coração oprimido pouco se divertia ao ver os belos animais marinhos dando um lindo show em troca de alguns peixinhos no final. É difícil, para mim, imaginar amor sincero por um animal selvagem, sem garantia de respeito e liberdade.
O escritor Richard O´Barry, autor do livro “Behind the dolphin smile” e treinador do golfinho Flipper, personagem principal do seriádo homônimo, revelou o horror pelo qual vivem esses animais, sofrendo em tanques ou piscinas, sem poder contar com a vida típica que sua natureza lhe permitiria. Ao perceber isso depois de anos dedicados a treiná-los, ele investiu todas suas energias e finanças em libertar vários golfinhos de suas “jaulas”.

A orca responsável pela morte da treinadora Dawn Brancheau, na semana passada, no SeaWorld de Orlando, já tinha assassinado outra treinadora. A orca “Tilikum”, que, junto a suas “colegas”, interpretava o personagem “Shamu”, foi acusada de matar alguém que a amava. Que mensagem ela tem mostrado com sua agressividade? Satisfação com seu “trabalho”, não pode ser. No entanto, a direção do parque aquático logo anunciou que retomaria os espetáculos com orcas no mesmo fim de semana.

O famoso Cirque du Soleil tem entretido milhões de pessoas pelo mundo inteiro e seus idealizadores enriqueceram com esse novo modelo de circo, que não utiliza animais. Por que, então, não estabelecer uma nova relação entre circenses e animais, que não envolva o sofrimento de um deles? Não seria o caso de adotar a política do “ganha-ganha”, tão difundida na administração? Na semana passada, perderam tanto os animais, quanto seus treinadores, mas, para alguns humanos inescrupulosos, tudo valeu pelo enorme dinheiro arrecadado de tantas pessoas, a maioria das quais em boa fé, buscando apenas entretenimento. Por mim, essa notícia motivou uma tomada de decisão que tinha adiado por muito tempo: nunca mais irei assistir esse tipo de triste espectáculo, e convido vocês, leitores e leitoras, a tomar a mesma decisão. Comecemos, continuamos ou retornamos a admirar o teatro, o cinema, as artes plásticas e toda beleza cênica e alegórica, curtindo a fantasia dos humanos e evitando a inútil dor de nossos amigos animais.

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