Uma pitada de Indonésia

John W Banagan / Getty Images

Morei em Jacarta, na Indonésia, por três anos e, embora, eu tenha retornado para o Brasil, a Indonésia continua fazendo parte da minha vida. Por anos, inclusive, pintei telas que retratavam a cultura de lugares que visitei, as quais resultaram na exposição “Brasil e Indonésia: tão longe e tão perto”, já exibida na sede da Embrapa, no Sesc 504 Sul, no shopping Liberty Mall e Gama Shopping, no Distrito Federal.

Na minha casa, mantenho os móveis de tek, uma madeira tipicamente local e, felizmente, estou sempre cercada de bons amigos indonésios conhecidos enquanto estive lá ou depois que retornei ao Brasil. Embora, eu tenha aprendido a preparar, eu mesma, alguns pratos da gastronomia javanesa ou balinesa, principalmente; e da alegria de ser convidada para deliciosos banquetes na Embaixada da Indonésia ou na residência dos amigos, sinto uma saudade especial do chá de gengibre e das frutas locais. Salak pondok era a minha fruta favorita!

Além do estudo das artes, meu período em Jacarta, inspirou-me a estudar as relações entre os povos, seus interesses, valores e crenças. Ver-me inserida em um universo diverso e similar ao Brasil, ao mesmo tempo, ampliou-me a visão de mundo e de diversidade cultural. Senti vontade de ler sobre expatriação, de pesquisar sobre choque cultural em livros, filmes, músicas… e não parei mais.

O cenário da Indonésia é pura fotografia. Os belos campos verdes de arroz irrigado contrastam com o céu azul das pequenas cidades. Em Jacarta, o céu cinza esconde seus luxuosos arranha-céus, mas deixa às vistas a miséria, as favelas, a falta de saneamento básico em áreas nobres: ricos e pobres dividem o mesmo bairro.

Fauna e flora são ricas e exuberantes. A arte teatral, musical ou cravada em prata, madeira e potes são verdadeiras obras de arte. A técnica de pintura em pano, batik, é uma das inúmeras expressões do talento do povo indonésio. Além de tudo isso, o povo é sorridente e simples. Não conheci ninguém que se achasse superior por seus lindos trabalhos e que empinasse o nariz por seus conhecimentos artesanais ou acadêmicos. Até mesmo os mais viajados esbanjavam doçura, sorrisos e simplicidade. Mas, eles não são somente doces, são agridoces. A história da Indonésia é marcada por guerras, lutas, jogos de poder, conflitos religiosos e muito sangue. Eles nunca dizem um marcado “não” nem mesmo para o impossível. Estão sempre abertos às possibilidades. A minha palavra favorita é “belum”, que significa ainda não. Ela cabe no intervalo entre o vivido e o que talvez jamais aconteça, mas que para um indonésio está ali, podendo advir de um milagre, de um fato inesperado, de uma surpresa,e, simplesmente, se tornar real.

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