
Nos últimos anos, a Espanha foi um dos países europeus que mais atraiu expatriados. De fato, segundo o jornal DW, o país registrou um aumento de 8% em sua população estrangeira em 2025. São diversas as motivações que têm levado milhões de pessoas a escolher a Espanha como seu novo lar, desde benefícios fiscais e vistos de residência acessíveis até o estilo de vida.
Entre esses fatores está a chamada Lei Beckham, criada em 2005, que estabeleceu um regime fiscal especial para determinados profissionais estrangeiros que se tornam residentes fiscais na Espanha. O regime prevê uma tributação diferenciada sobre determinados rendimentos obtidos durante os primeiros anos de residência, tornando a Espanha particularmente atrativa para alguns profissionais e executivos internacionais.
Quando um executivo de multinacional avalia deixar o seu país para viver na Espanha, Barcelona naturalmente aparece entre as primeiras opções. É uma das cidades com maior atividade empresarial em toda Europa, com escritórios de multinacionais como a SEAT, a Nestlé, o Lidl e as farmacêuticas Novartis e Roche. Ademais, a capital catalã proporciona um ambiente internacional e cosmopolita, com um grande número de expatriados trabalhando no bairro de Poblenou, polo de inovação, design e tecnologia conhecido pelo nome 22@ Barcelona. Além de tudo, é muito fácil a comunicação em inglês.

Mas Barcelona também enfrenta hoje uma série de desafios, tais como o aumento do custo de vida e a densidade populacional. Estes problemas estão relacionados ao turismo. A cidade recebe cerca de 10 visitantes por ano por cada residente, e isso se reflete na atual crise de moradia, e na superlotação da cidade, o que tem acarretado vários protestos nos últimos anos. Consequentemente, o debate sobre os limites do turismo têm alterado a experiência de quem vive na cidade, especialmente de quem chega para ficar.
É nesse contexto que Alicante merece ser observada com atenção. Não como substituta de Barcelona, mas como uma alternativa com racional próprio, especialmente para perfis executivos que priorizam qualidade de vida, previsibilidade e uma curva de adaptação mais suave para a família. Nessa perspectiva, há um dado particularmente interessante para quem está avaliando uma mudança: no Expat City Ranking 2024 da InterNations, Alicante ficou em 3º lugar entre 53 cidades avaliadas por expatriados, enquanto Barcelona ficou em 21º. Alicante também ficou em 2º lugar no índice de qualidade de vida e em 3º em facilidade de adaptação.
Uma estrutura urbana reconhecível, em escala diferente
Alicante compartilha com Barcelona elementos estruturais que, para quem já viveu a experiência da capital catalã, tornam a transição menos disruptiva.
O eixo urbano junto ao mar. Barcelona tem La Rambla, o icônico corredor de aproximadamente 1,2 km que atravessa o centro em direção ao litoral. Há também a Rambla del Poblenou, mais frequentada por moradores locais: é uma alameda de pedestres com cerca de 1 km de extensão, que conecta a Gran Via à praia de Bogatell. Alicante tem sua própria versão dessa lógica urbana: a Rambla de Méndez Núñez, que atravessa o centro tradicional, e a Explanada de España, o grande passeio à beira-mar, ladeado por palmeiras e pavimentado com seu célebre mosaico ondulado. A função é semelhante: um eixo social, comercial e simbólico que organiza parte da vida da cidade. A escala, porém, é mais compacta, o que se traduz em deslocamentos mais curtos e menor tempo perdido no dia a dia.

Há ainda uma diferença prática para quem pensa em qualidade de vida: a relação da cidade com a praia. Em Alicante, a Playa del Postiguet está literalmente no coração da cidade, aos pés do Castelo de Santa Bárbara e a poucos passos do centro histórico e da Explanada de España. São cerca de 900 metros de areia fina e dourada, com águas tranquilas, integrados à vida cotidiana da cidade. Barcelona também oferece uma relação privilegiada com o Mediterrâneo, com quase 5,5 quilômetros de praias urbanas, mas a experiência é diferente: em Alicante, a proximidade entre centro histórico, passeio marítimo, comércio e praia cria uma sensação de escala mais compacta e imediata. Para um executivo internacional, essa diferença pode parecer pequena no mapa, mas torna-se bastante significativa na rotina: terminar uma reunião, caminhar alguns minutos e estar diante do mar não é apenas uma experiência turística, mas uma possibilidade concreta de incorporar bem-estar à vida cotidiana.
Essa relação com o mar também se percebe na vida social da cidade. Em Barcelona, a região da Barceloneta é conhecida pela combinação entre praia, restaurantes, bares e a movimentação do entorno do Port Vell e da marina, formando um dos pontos mais dinâmicos da cidade. Em Alicante, a área junto ao porto oferece uma experiência que, embora mais tranquila, segue uma lógica semelhante: restaurantes, cafés e rooftops se distribuem ao longo da marina, conectando o centro da cidade ao Mediterrâneo. Essa vitalidade também pude perceber pessoalmente durante minha passagem pela cidade: a região do porto permanece movimentada até tarde, com restaurantes e espaços de entretenimento cheios mesmo durante a madrugada.
Outro ponto que considero particularmente interessante para quem se muda com a família é a facilidade de acesso a outras praias da região. Além da própria praia no centro da cidade, Alicante está conectada por transporte público a diferentes áreas do litoral, permitindo chegar de forma relativamente simples e econômica a praias como San Juan, conhecida pela extensa faixa de areia e pelo ambiente residencial. Essa possibilidade amplia bastante as opções de lazer sem exigir grandes deslocamentos ou a necessidade de morar diretamente em uma área turística. Somada a uma atmosfera que considero acolhedora e adequada à vida familiar, essa facilidade contribui para uma experiência de residência que combina cidade, mar e qualidade de vida.
Arquitetura com identidade própria
É evidente que Alicante não compete com Barcelona no terreno da arquitetura modernista, e seria injusto tentar estabelecer essa comparação. Barcelona tem em Antoni Gaudí e no modernismo catalão uma assinatura arquitetônica de alcance mundial. Alicante, por outro lado, oferece uma arquitetura menos monumental, mas muito marcada pela história mediterrânea: edifícios históricos, fachadas coloridas, varandas, praças e construções que combinam diferentes períodos e influências. É uma arquitetura que talvez não impressione pela grandiosidade de um primeiro olhar, mas que se revela nos detalhes e, sobretudo, na escala mais humana da cidade.
Essa identidade local aparece de forma ainda mais evidente no Barrio de Santa Cruz. Suas ruas estreitas e íngremes, as pequenas casas de fachadas coloridas, os vasos de flores e os detalhes preservados criam uma atmosfera muito diferente da monumentalidade arquitetônica de Barcelona. É um bairro que se percorre a pé, quase como uma pequena cidade dentro da cidade, e que revela uma dimensão mais residencial e comunitária de Alicante.

Durante minha caminhada pelo bairro, sob o sol ou a chuva, chamou minha atenção a presença de mensagens e frases nas paredes, que acrescentam ao percurso uma dimensão inesperadamente reflexiva. Ao mesmo tempo, a exuberância das paisagens e a vista do Castelo de Santa Bárbara, no alto do Monte Benacantil, reforçam a forte identidade visual e histórica da cidade.
Essa presença também estabelece um interessante paralelo com Barcelona. Assim como o Castelo de Montjuïc marca a topografia e a história da capital catalã, o Castelo de Santa Bárbara domina Alicante e sua baía. A fortaleza, cuja origem remonta ao período muçulmano, reúne diferentes camadas históricas e oferece uma perspectiva privilegiada sobre a cidade e o Mediterrâneo.
Em Barcelona, eu fiz o trajeto de teleférico, e embora em Alicante houvesse a opção de chegar ao Castelo de Santa Bárbara de elevador, fiz a opção de caminhar desde o Barrio de Santa Cruz até o Castillo de Santa Bárbara. O trajeto não tem muitos desafios, e ainda permite uma forte conexão com a natureza. São experiências diferentes, mas que ilustram algo que considero relevante quando se avalia uma cidade para viver: a possibilidade de integrar movimento, natureza, cultura e bem-estar à rotina, sem que isso exija grandes deslocamentos ou planejamento. Ao mesmo tempo em que possibiita a inclusão.

Essa atenção à qualidade de vida também aparece em aspectos que muitas vezes passam despercebidos quando se avalia uma cidade. Durante minha passagem por Alicante, chamou minha atenção a preocupação com a acessibilidade das praias. No Postiguet e em San Juan, por exemplo, existem acessos adaptados e, durante a temporada de verão, serviços de assistência ao banho para pessoas com mobilidade reduzida, incluindo cadeiras anfíbias, áreas de sombra e estruturas adaptadas. Em 2026, o serviço municipal atende também outras praias da região e registra entre 600 e 700 usuários por dia durante a temporada.
Foi uma surpresa perceber que, em Alicante, a inclusão também chega ao mar. Para uma família que considera uma mudança internacional, são esses detalhes, muitas vezes invisíveis em rankings e comparações de cidades, que ajudam a revelar o quanto uma cidade está preparada para oferecer qualidade de vida a diferentes perfis de pessoas.

Barcelona e Alicante falam a mesma língua?
Entre as tantas semelhanças entre Barcelona e Alicante, existe também uma proximidade linguística que pode ser relevante para quem avalia uma mudança internacional para a Espanha. Barcelona está inserida em um contexto bilíngue, no qual o catalão e o castelhano convivem no cotidiano, nas instituições, na educação e na vida profissional. Alicante, por sua vez, integra a Comunidade Valenciana, onde o castelhano e o valenciano coexistem oficialmente.
Embora os contextos linguísticos das duas cidades não sejam exatamente iguais, existe uma proximidade entre o catalão e o valenciano que torna essa realidade menos distante para quem já teve contato com o universo linguístico catalão. Para um executivo internacional ou alguém que busca a mudança por motivações acadêmicas, essa familiaridade pode representar uma vantagem de adaptação. Quem já se preparou para viver e trabalhar em um ambiente no qual o catalão está presente encontrará em Alicante uma realidade linguística que, em muitos aspectos, será reconhecível. Embora o catalão de Barcelona e o valenciano possuam suas características próprias, as semelhanças são significativas (veja a tabela abaixo) e permitem que catalães tenham uma conversa com valencianos em suas respectivas línguas nativas.
| Português | Inglês | Castelhano | Catalão (Barcelona) | Valenciano |
|---|---|---|---|---|
| casa | house | casa | casa | casa |
| comer | to eat | comer | menjar | menjar |
| janela | window | ventana | finestra | finestra |
| criança | child | niño/a | nen / nena | xiquet / xiqueta |
| agora | now | ahora | ara | ara |
| batata | potato | patata | patata | creïlla |
Em Barcelona, percebi que, quando um expatriado se arrisca a falar catalão em vez de recorrer automaticamente ao espanhol, esse esforço costuma ser percebido como uma demonstração de respeito e interesse pela cultura local. Mais do que a fluência, parece importar a disposição de se aproximar da comunidade e reconhecer a identidade cultural daquele lugar. Consequentemente, em um processo de adaptação internacional, a língua pode ser uma verdadeira ponte cultural. Ela não elimina as diferenças, mas ajuda a construir proximidade, confiança e pertencimento. Esses elementos são importantes para quem pretende não apenas trabalhar em uma nova cidade, mas efetivamente construir uma vida nela.
A diferença mais relevante entre Barcelona e Alicante não está em um monumento específico, na gastronomia, ou mesmo na língua. Está, sobretudo, na escala e na forma como a cidade se relaciona com quem vive nela.
O Mediterrâneo é um elemento central nas duas cidades, mas em Alicante essa relação parece particularmente integrada à vida cotidiana. O mar, os espaços públicos, os passeios, os restaurantes e as praias estão próximos entre si e podem fazer parte da rotina sem exigir grandes deslocamentos. Para quem ocupa posições de alta responsabilidade, essa possibilidade de inserir movimento, convivência e momentos de pausa no próprio cotidiano tem um valor que vai além do lazer.
Essa percepção se estende a outros aspectos da experiência urbana. Durante minha passagem por Alicante, chamou minha atenção a maneira como percebi a atuação da Polícia Local: mais próxima, orientadora e colaborativa nas interações que presenciei. Mais do que uma presença associada exclusivamente à fiscalização, tive a impressão de encontrar um serviço público disposto a informar, orientar e auxiliar. Essa percepção também encontra algum respaldo nas atribuições oficiais da Policía Local, que incluem atendimento ao cidadão, assistência e auxílio, mediação de conflitos e ações de educação e prevenção.
Outro aspecto que se torna relevante quando se pensa em uma mudança internacional é o custo da vida cotidiana. Os dados mais recentes disponíveis indicam que Alicante apresenta um custo de vida inferior ao de Barcelona. O Expatistan estima uma diferença de aproximadamente 19% no custo geral e aponta diferenças ainda mais expressivas em algumas categorias: cerca de 27% em roupas e 8% a 9% em alimentação. Em itens específicos, a diferença pode ser maior ou menor, mas a tendência geral favorece Alicante.
Na prática, isso significa que a diferença de escala não aparece apenas no mapa. Ela pode aparecer também no orçamento familiar, na frequência com que se utiliza um restaurante, na possibilidade de consumir determinados produtos ou simplesmente na margem financeira disponível para outras escolhas. Para um executivo em processo de mudança, essa equação é importante: qualidade de vida não depende apenas do salário que se recebe, mas também do que esse salário permite construir no lugar onde se vive.
Alicante reúne muitos dos atributos que tornam Barcelona atraente: mar, patrimônio histórico, gastronomia, comércio, vida urbana e conexão internacional. No entanto, alguns deles estão apresentados em uma escala compacta. O comércio percorre diferentes faixas, do cotidiano ao sofisticado, enquanto as ruas e os espaços públicos preservam uma dimensão de proximidade.
Um exemplo que me chamou a atenção foi a Calle San Francisco. Mais do que uma rua conhecida pelas suas figuras de cogumelos, ela revela uma característica interessante da cidade: a possibilidade de um espaço central ser, simultaneamente, comercial, lúdico e familiar, com crianças brincando e famílias ocupando a rua com naturalidade.
Para determinados perfis executivos, especialmente aqueles que estão reorganizando prioridades pessoais e familiares, essa escala pode representar uma vantagem concreta. Menos tempo de deslocamento, custos cotidianos potencialmente mais baixos e maior proximidade entre trabalho, serviços, lazer e vida familiar podem reduzir a fricção que tantas vezes acompanha uma mudança internacional.
A questão, portanto, não é se Alicante oferece mais ou menos do que Barcelona. É se oferece a combinação certa de atributos para a fase de vida que esse executivo está vivendo.

Nenhuma cidade é superior à outra. Barcelona e Alicante oferecem experiências urbanas diferentes e podem responder melhor a momentos distintos da vida. Assim como acontece em decisões de carreira, o critério mais relevante não é necessariamente o caminho mais conhecido, o mercado mais prestigiado ou a escolha que parece mais óbvia. É aquele que melhor se ajusta à fase de vida, aos objetivos e às prioridades reais de quem decide.
Se você está diante de uma oportunidade de mudança ou deseja criá-la, mas quer se dar a chance de acertar e ser bem sucedido, entre em contato. Deixe uma mensagem aqui ou envie um e-mail para coaching@adrianalombardo.com
Leia também:
Ibiza: quando a música se torna uma linguagem sem fronteiras
Coaching Transcultural: uma competência estratégica para líderes globais
Liderança à la Merlí: reflexões de uma visita à Universidade de Barcelona
Pesquisa cultural em Istambul para a adaptação de executivos
Por que a ansiedade pode surgir depois da mudança — e não antes
Minha coleção de rooftops pelo mundo
Alguns videos sobre a Espanha
Barcelona – Como as cidades globais podem prosperar sem perder a sua alma?
Barcelona – Castell de Montjuïc
Espanha – Você escolheria uma jornada das 8h às 15h no verão?

Adorei as dicas querida amiga.
Pretendo colocá-las em prática, em breve!!