A liderança transcultural de José Mourinho

Poucos líderes conseguem, ao mesmo tempo, vencer tanto e dividir tanto. O português José Mourinho é um desses raros casos. Atualmente técnico do Benfica, Mourinho é amado por jogadores, seguido com lealdade quase absoluta por alguns elencos e frequentemente contestado por jornalistas e parte do público, construindo uma carreira que desafia leituras simples sobre liderança transcultural.

Ex-jogador de clubes portugueses como o Rio Ave e o Vitória de Guimarães, José Mourinho construiu sua notoriedade principalmente como treinador. Fora das quatro linhas, iniciou a carreira no futebol profissional como tradutor e, posteriormente, auxiliar técnico do inglês Bobby Robson, no Sporting. Tornou-se seu braço direito e acompanhou o treinador em passagens pelo Porto e, mais tarde, pelo Barcelona.

Essa trajetória ao lado de Robson permitiu a Mourinho conhecer em profundidade o futebol espanhol. Quando Robson deixou o Barcelona para assumir o PSV, Mourinho permaneceu na Catalunha integrando a comissão técnica do holandês Louis van Gaal, ampliando ainda mais os seus conhecimentos táticos e culturais. Em 2000, teve a oportunidade de treinar o Benfica em Portugal, onde iniciou a sua carreira como treinador.

Em pouco mais de duas décadas de carreira como técnico, José Mourinho comandou dez clubes em cinco países, construindo uma trajetória internacional e transcultural. Fora de Portugal, sua experiência mais longa foi na Inglaterra, onde treinou clubes da Premier League por cerca de nove anos, deixando uma marca duradoura no futebol inglês. Teve também passagens mais curtas, porém relevantes, pela Itália (Inter Milano e Roma) e pela Espanha (Barcelona e Real Madrid).

Mais recentemente, entre 2024 e 2025, Mourinho assumiu o comando do Fenerbahçe, em Istambul. A experiência expôs de forma particularmente clara os desafios da adaptação a um contexto cultural e organizacional distinto (leia também – pesquisa cultural em Istambul para a adaptação de executivos).

Fiz mal em ir para o Fenerbahçe, não era o meu nível cultural, não era o meu nível enquanto futebol, não era.

Em sua carreira, Mourinho conquistou mais de vinte e cinco troféus oficiais, incluindo duas Champions Leagues e campeonatos nacionais em quatro países diferentes. Além disso, foi o primeiro técnico da história a vencer as três principais competições europeias: Champions League, Europa League e Europa Conference League. Resultados que o colocam entre os treinadores mais bem-sucedidos do futebol moderno.

Mas os números não explicam tudo. O estilo de liderança de Mourinho é marcado por uma comunicação direta, muitas vezes provocadora, que rompe com expectativas tradicionais de diplomacia institucional. Em diversos contextos, essa postura foi interpretada como arrogância. Mourinho não evita o confronto com a imprensa e, em alguns casos, utiliza o conflito de forma estratégica — desviando a pressão dos jogadores e protegendo o grupo.

Diversos atletas que trabalharam com ele descrevem uma relação exigente, por vezes dura, mas profundamente formadora. Didier Drogba sintetizou essa experiência com clareza:

Mourinho não me ensinou a jogar futebol. Eu sei jogar futebol. O que ele me ensinou foi como jogar em equipe, algo diferente. E é por isso que onde ele vai, alcança o sucesso.

Essa combinação entre exigência extrema e construção de identidade coletiva foi especialmente visível em sua ascensão no FC Porto. Ao levar o clube a uma vitória inesperada na Champions League, Mourinho consolidou um modelo de liderança que equilibrava alto desempenho com atenção ao bem-estar emocional dos jogadores, criando laços de confiança e cumplicidade. Segundo muitos especialistas em futebol, foi no Porto que José Mourinho desenvolveu o seu atual estilo como treinador. A reportagem abaixo, realizada pelo The Guardian, dá mais detalhes sobre como Mourinho adaptou suas técnicas às diversas equipes que treinou.

Após esse período, ao chegar ao Chelsea, apresentou-se como “The Special One”. Mais do que um gesto de vaidade, a frase funcionou como um ato simbólico de liderança: se o líder é especial, o grupo que ele lidera também pode sê-lo. Trata-se de uma estratégia conhecida em contextos de alta performance: a criação de uma identidade coletiva forte como fonte de motivação e coesão.

Outro elemento central do seu estilo foi a comunicação transcultural. Fluente em português, espanhol, francês, italiano e inglês, Mourinho sempre demonstrou compreender o valor simbólico de falar a língua do outro. Durante sua passagem pelo Inter de Milão, afirmou ter estudado italiano durante cerca de cinco horas por dia durante meses, com o objetivo de se comunicar plenamente com jogadores, imprensa e adeptos.

Do ponto de vista do coaching transcultural, essa escolha é significativa. A adaptação linguística reduz distâncias de poder percebidas, fortalece a confiança e favorece a criação de segurança psicológica em equipes diversas. Mourinho não liderava “de fora”: buscava integrar-se culturalmente ao clube, à cidade e à narrativa coletiva do grupo.

No entanto, a mesma liderança que produziu resultados extraordinários em alguns contextos revelou limites importantes em outros. A passagem pelo Real Madrid (2010–2013) é um exemplo emblemático de desalinhamento entre estilo de liderança e cultura organizacional. Embora tenha conquistado títulos relevantes, o período ficou marcado por conflitos internos, tensões no vestiário e uma relação desgastada com figuras centrais do clube, como o capitão Iker Casillas.

Em sua autobiografia, Mesut Özil relata episódios em que se sentiu exposto emocionalmente diante das exigências do treinador. Em um ambiente composto por estrelas globais, forte pressão midiática e egos já consolidados, o estilo confrontacional de Mourinho tornou-se polarizador. O próprio treinador chegou a classificar sua última temporada no clube como “a pior da carreira”, evidenciando o custo relacional daquele contexto.

José Mourinho e Mesut Özil – imagem gerada por inteligência artificial

Esse contraste reforça um princípio fundamental da liderança transcultural: o mesmo líder pode gerar excelência ou resistência profunda dependendo da cultura organizacional em que atua. Não existe um estilo universalmente eficaz — existe adequação.

José Mourinho não é um modelo a ser replicado, mas um caso a ser compreendido. Sua trajetória ilustra, com rara clareza, como liderança, comunicação e cultura se entrelaçam em ambientes de alta pressão. Para líderes, coaches e profissionais que atuam em contextos internacionais, seu percurso oferece um aprendizado essencial: resultados sustentáveis dependem menos da força do ego e mais da capacidade de ler contextos, ajustar estilos e construir sentido coletivo.

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